sexta, 19 de junho de 2026
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VOZES QUE O TEMPO NÃO CONSEGUE APAGAR – POR SÉRGIO FARIA

João - 19/06/2026 05:00

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras

“Quem não se lembra do passado está condenado a repeti-lo”
George Santayana

O relógio marcava 8h15. Preso a um braço humano reconstruído em cera, permanecia registrando o instante exato em que a primeira bomba atômica explodiu e Hiroshima deixou de ser apenas uma cidade para se tornar um símbolo.

Diante daquela cena, décadas atrás, durante uma temporada de estudos no Japão, compreendi que a história não se restringe ao conteúdo dos livros.
Saí do Museu da Paz com uma sensação difícil de definir. Não era apenas tristeza. Era algo mais profundo: a consciência de que o ser humano é capaz de construir maravilhas e horrores com a mesma inteligência.

Anos depois, em Jerusalém, experimentei sentimento semelhante ao visitar Yad Vashem. Entre fotografias e testemunhos, o passado parecia caminhar ao lado dos visitantes. Havia vozes ausentes em toda parte. Vozes que o tempo não conseguiu apagar.

Mas foi somente agora, ao percorrer o Memorial e Museu Auschwitz-Birkenau, no sul da Polônia, que essas lembranças se uniram como peças de um mesmo mosaico.

Os trilhos avançam em direção ao campo como se ainda carregassem os trens que chegavam lotados de homens, mulheres e crianças. Os visitantes andam devagar. Alguns falam muito baixo, mas quase todos permanecem em silêncio absoluto. Há lugares em que o silêncio parece adquirir peso próprio.

Em Hiroshima, a destruição veio num instante.

Em Auschwitz, o horror não surgiu de uma explosão repentina, mas de um processo meticuloso, construído passo a passo por pessoas que voltavam para casa ao fim do expediente, jantavam com a família e retomavam para suas tarefas no dia seguinte.

Talvez seja essa a constatação mais inquietante.

Gostamos de imaginar que as grandes tragédias da história são obra exclusiva de monstros. A realidade, porém, costuma ser mais desconfortável. Os monstros existem, sem dúvida, mas raramente atuam sozinhos. Precisam da colaboração, da passividade e do silêncio de pessoas que permanecem no anonimato.
Caminhando entre os barracões de Auschwitz, compreendi que a barbárie não começa nos campos de extermínio nem nas guerras. Ela começa muito antes, quando deixamos de reconhecer a dignidade do outro. Quando um nome se transforma em número.

Hiroshima, Yad Vashem e Auschwitz dialogam entre si. São lugares erguidos sobre cicatrizes, mas destinados à vida. Existem para lembrar. Existem para advertir.

Vivemos tempos em que a memória parece um fardo e o esquecimento uma tentação confortável. Talvez por isso esses lugares sejam tão necessários. Eles nos recordam que a civilização é menos sólida do que imaginamos e que a paz não é um estado permanente, mas uma construção diária e delicada.

Ao deixar Auschwitz, olhei uma última vez para os trilhos.

O campo permanecia silencioso, mas naquele silêncio havia uma mensagem eloquente: a barbárie raramente anuncia sua chegada. Ela avança devagar, quase sempre sem ruído, alimentada pela indiferença e pelo esquecimento.

Tudo ali representa uma ferida aberta na memória da humanidade. Lembrar não é apenas um dever para com os mortos – é uma responsabilidade para com os vivos.

 

Imagem de Annette por Pixabay

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