

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Há obras clássicas que fascinam, mas cuja leitura é um verdadeiro desafio, seja pela linguagem excessivamente densa, seja pelas estruturas fragmentadas ou pelo vocabulário rebuscado. Ulysses, do escritor irlandês James Joyce, talvez seja um dos exemplos mais conhecidos dessa literatura que exige esforço permanente do leitor.
Existem livros, porém, cuja dificuldade não está na forma, mas na experiência emocional que impõem. Obras que se leem com fluidez, embora deixem marcas profundas, como se cada página abrisse lentamente uma fissura na sensibilidade humana.
A Vegetariana, da escritora sul-coreana Han Kang — vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2024 — pertence a esta categoria rara. É um romance singular, escrito numa prosa aparentemente simples, mas carregada de inquietação. Desde as primeiras páginas, o leitor é conduzido por uma narrativa ao mesmo tempo delicada e cruel porque expõe o drama humano sem qualquer artifício consolador.
Se pudéssemos definir a obra com um único adjetivo, talvez o mais adequado fosse este: perturbadora.
Ao mesmo tempo em que encanta pela precisão estética, o romance atormenta pela violência silenciosa que atravessa suas páginas. Han Kang constrói uma poderosa alegoria sobre opressão, saúde mental, culpa e a tentativa extrema de escapar das imposições da sociedade. A recusa da carne deixa de ser mera opção alimentar para transformar-se numa rejeição simbólica da brutalidade humana.
A protagonista converte o próprio corpo em território de resistência — ainda que essa resistência caminhe perigosamente em direção à autodestruição. Há algo de profundamente trágico nessa busca impossível por pureza, como se abandonar a violência do mundo implicasse também abandonar, pouco a pouco, a própria condição humana.
Não por acaso, a crítica internacional acolheu o romance como uma contundente denúncia da sociedade patriarcal e da forma como a individualidade feminina é sufocada. Contudo, reduzir A Vegetariana a uma leitura apenas política talvez seja insuficiente. O livro ultrapassa qualquer interpretação única, porque fala também da solidão, do silêncio e da incapacidade humana de compreender o sofrimento do outro.
O horror, afinal, não nasce de monstros extraordinários, mas das relações cotidianas, da indiferença, da falta de comunicação e da violência banal que tantas vezes se disfarça de normalidade.
Han Kang narra a história a partir de três perspectivas distintas, mas nunca concede à protagonista a centralidade de sua própria voz. O silêncio da personagem torna-se, assim, ainda mais eloquente. Em torno dessa figura silenciosa, os demais personagens projetam desejos, frustrações, medos e obsessões, como se ninguém fosse realmente capaz de enxergá-la em sua humanidade essencial.
Talvez resida aí uma das maiores forças do romance: a autora parece menos interessada em oferecer respostas do que em revelar as rachaduras ocultas da civilização, da família e da própria alma humana.
Alguns livros permanecem dentro de nós como um incômodo persistente, difícil de explicar e impossível de esquecer. A Vegetariana é desconfortável, por vezes cruel, mas inegavelmente genial — uma leitura imprescindível para quem ainda acredita que a literatura deve não apenas emocionar, mas também desestabilizar as nossas certezas.
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