sexta, 31 de julho de 2026
Euro Dólar

O GÊNIO DA LÂMPADA – POR SÉRGIO FARIA

João - 31/07/2026 05:00

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras

Qual o seu pedido para o gênio da lâmpada encantada?

Quase todo mundo, na infância, já teve que responder a essa pergunta. A verdade, porém, é que continuamos a nos deparar com ela ao longo de toda a vida, mudando apenas a forma da indagação e o conteúdo da resposta, pois os desejos e as expectativas se transformam à medida que crescemos, amadurecemos e acumulamos experiências.

Quando eu era menino, eu queria um brinquedo novo, uma bola, uma bicicleta, ou um carro de bombeiro.

Na escola, muitas vezes imaginei recorrer ao gênio para tirar a maior nota da turma, para que meu time vencesse o campeonato, para marcar um gol digno de “Pelé”, ou, quem sabe, para escapar ileso de alguma estripulia própria da idade.

Na adolescência, rebelde, como parece ser da natureza de quase todos os adolescentes, já não acreditava em nada que me ligasse à infância. Mas, se ainda tivesse de acreditar em alguma coisa, certamente pediria ao gênio para que despertasse a atenção da menina mais cobiçada da turma. Sonharia também com uma moto, um carro barulhento ou talvez me frustrasse quando ele me negasse a habilidade para dedilhar o violão – eis aí uma das minhas maiores frustrações.

Na época do vestibular, pensei novamente no gênio para dar uma forcinha. Embora tivesse estudado como um condenado, suspeito que, no fundo, ele também tenha colaborado.

Mais tarde, na faculdade e na vida profissional, quantas vezes não desejei a solução fácil diante dos problemas que, a partir dalí, começavam a surgir, cada vez mais complexos, mais exigentes e mais definitivos.

Confesso que, durante algum tempo, também sonhei com o gênio trazendo riqueza material. Hoje, porém, percebo que apenas o tolo – seja rico ou pobre – insiste em pedir dinheiro ao gênio da lâmpada.

Longe de mim defender uma existência nos moldes de Diógenes, o filósofo grego que se notabilizou pelo absoluto desapego aos bens materiais e às convenções sociais. Entretanto, cedo ou tarde, todo homem minimamente atento percebe que o dinheiro é importante sobretudo para que não sejamos escravos dele.

Tomo por guia as palavras por vezes atribuídas ao poeta e dramaturgo francês Victor Hugo:

“Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro, porque é preciso ser prático. E que, pelo menos uma vez por ano, coloque um pouco dele na sua frente de diga ‘isso é meu’, só para que fique bem claro quem é o dono de quem…”.

Nas minhas reflexões noturnas, o gênio da lâmpada continua aparecendo diante de mim e repetindo a velha pergunta da infância. Qual é hoje o meu desejo maior? O que eu pediria agora?

A resposta tem mudado com o tempo. Entretanto, cada vez mais, encontro eco no relato bíblico do cego Bartimeu (Marcos, 10, 46-52).

“Mestre, que eu veja”

Este parece ser o meu verdadeiro pedido.

Ver. Enxergar. Ter lucidez e sabedoria para seguir o caminho que tenho pela frente.

Não desejo a esperteza do mundo e sim a luz maior, pois, antes de qualquer outra coisa, quero equilíbrio e discernimento para saber escolher, entre tantas possibilidades, aquela que me pareça mais justa, mais prudente e, sobretudo, mais humana.

Diferente do que imaginava quando criança, percebo agora que, para que esse pedido seja atendido, não basta confiar na generosidade do gênio da lâmpada.

A lucidez que tanto procuro depende do esforço cotidiano, da busca permanente pelo conhecimento, da leitura, da observação criteriosa dos exemplos, da humildade para ouvir, da coragem para rever as próprias certezas e da capacidade para transformar cada acontecimento – favorável ou adverso – em aprendizado.

Penso que a verdadeira sabedoria seja ver antes de desejar ter. E descobrir, finalmente, que o maior milagre não é receber tudo o que se pede, mas enxergar com clareza aquilo que realmente vale a pena pedir.

Um pedido que não se esgote em nossos próprios interesses, mas que também alcance os outros e o mundo que habitamos.

 

Imagem de 1tamara2 por Pixabay

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.