
Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Quero escrever uma crônica. Quero escrever um livro de crônicas.
Não sei por onde começar. A página em branco me olha em silêncio, como se também esperasse por alguma coisa.
Normalmente, uma crônica nasce de um fato verdadeiro. Mas a verdade, nua e crua, ainda não é crônica. É notícia, é reportagem, é acontecimento. A crônica começa quando a realidade deixa de ser apenas aquilo que aconteceu e passa a ser aquilo que o escritor imagina que poderia ter acontecido.
E a verdade é menos sólida do que imaginamos. Muda conforme o olhar, o tempo, a distância. Uma mesma paisagem pode ser diferente aos olhos de quem chega e de quem parte. A verdade de hoje pode não ser exatamente a verdade de ontem.
O cronista vive nesse território impreciso entre o que existiu e o que poderia ter existido.
E por isso inventa.
Mas inventar não é necessariamente mentir. O escritor não mente para enganar; inventa para revelar. Às vezes, é preciso mudar uma pequena coisa da realidade para alcançar uma verdade maior.
Ariano Suassuna gostava da mentira que nasce do amor à arte. E é justamente essa mentira que interessa ao escritor; aquela que não pretende enganar ninguém, mas apenas acrescentar à realidade aquilo que a realidade, sozinha, não conseguiu dizer.
O cronista, então, torna-se uma espécie de construtor de verdades inventadas.
Mas há outro detalhe: uma vez escrita, a crônica deixa de pertencer inteiramente ao autor. Cada leitor acrescenta a ela sua própria memória, suas experiências, suas tristezas, suas alegrias. Às vezes, o leitor encontra no texto alguma coisa que o escritor jamais imaginou ter colocado ali.
Esse é um dos mistérios da literatura: o autor escreve uma história e o leitor termina criando outra dentro dela.
Procuro a matéria-prima para minhas crônicas onde ela costuma estar: no cotidiano.
Uma conversa, uma lembrança, um encontro casual, uma cena de rua, uma frase ouvida sem querer. Coisas pequenas, quase invisíveis, que passam diante de nós todos os dias e que, na pressa da vida, quase nunca conseguimos enxergar.
É daí que gosto de partir.
Olhar para o simples e descobrir nele alguma coisa que mereça ser contada.
Uma pitada de humor, outra de melancolia, uma pergunta escondida no meio da história.
Brincando, falar de coisas sérias.
A palavra brincar é mágica!
Neste mundo agitado, no corre-corre do dia a dia, já não nos permitimos mais brincar e isso é sério.
Isso mata.
Antes de qualquer coisa, me divirto escrevendo e escrevo para me divertir. Escrevo para brincar com as palavras, com as ideias, com as lembranças. E isso é bom.
Isso é muito bom.
Isso salva.
Escrevo sem pensar em publicar. Guardo os textos. Depois volto a eles. Corto uma palavra, acrescento outra, mudo uma frase de lugar. Mexo aqui e acolá, como quem desmonta um brinquedo para descobrir como ele funciona.
Aí, então, percebo que escrever me leva de volta à infância.
Lembro da minha antiga fazendinha de brinquedo. Os animais, os bonecos, as cercas, as pequenas casas. Eu mudava tudo de lugar, inventava histórias, criava acontecimentos que só existiam naquele pequeno mundo. Depois fazia o mesmo com os carrinhos. Uma estrada imaginária, uma cidade inventada, um acidente que nunca aconteceu, uma viagem que não levaria a lugar algum.
Escrever é isso: voltar a ser criança por alguns instantes e, com as palavras, reorganizar o mundo sobre a mesa.
Para escrever uma crônica, procuro seguir, à minha maneira, a receita poética de Jacques Prévert em Para pintar o retrato de um pássaro: preparar a gaiola, deixar a porta aberta e esperar.
Esperar o pássaro.
É preciso pintar a paisagem, a folhagem, o vento, a luz, o verão. Depois, simplesmente esperar.
Escrever é também uma forma de espera.
A página em branco é a gaiola aberta. Preparo a página e espero.
Às vezes, o pássaro não vem.
Às vezes, vem.
Quando vem, pousa mansamente sobre a folha em branco. E então começo a escrever.
As crônicas vão se acumulando. Uma aqui, outra ali. Algumas permanecem, outras desaparecem. Algumas parecem prontas; outras pedem novas palavras, novos cortes, outro final.
E, um dia, quase sem perceber, descubro que há um conjunto.
É então que começo a pensar no livro.
Não mais em cada crônica isoladamente, mas no diálogo secreto que existe entre elas. Descubro que, juntas, elas contam uma história que nenhuma delas conseguiria contar sozinha.
E compreendo que o livro não nasceu naquele momento.
Nasceu muito antes.
Nasceu na infância, nas brincadeiras, nas lembranças, nas coisas pequenas que um dia passaram diante dos meus olhos e ficaram guardadas em algum lugar da memória.
Nasceu nas palavras que escrevi sem intenção de publicar.
Nasceu naquela primeira página em branco.
É assim que nasce um livro de crônicas: sem pressa, sem a obrigação de existir. Como nasce um pássaro.
Primeiro, em silêncio.
Depois, abre o bico.
Abre as asas.
E canta.
E voa.
Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras