

O escritor Jorge Luis Borges afirmou que, dado um tempo infinito e circunstâncias infinitas, seria impossível não existir a Odisseia. Borges disse também que não existe um texto definitivo de Homero e que cada tradução cria uma nova obra. Por isso, não me dei ao trabalho de discutir o que faltou ou o que havia em excesso na Odisseia de Christopher Nolan; sabia que não seria a minha Odisseia, mas a de Nolan, e só o fato de ele tê-la composto e apresentado aos jovens já é razão de aplauso. Odisseu, ou Ulisses, é, em toda a sua humanidade, um verdadeiro herói e deve ter surpreendido aqueles que apenas conheceram os heróis pueris da Marvel. Apresentá-lo aos adultos de hoje, que, com suas ideias arraigadas e reacionárias, estão hipnotizados por discursos retrógrados, é também importante para que percebam o quão pequenos e ridículos são os que se creem heróis do nosso tempo.
Mas quem for assistir ao filme precisa saber que Ulisses é um herói da Grécia Antiga e nada tem a ver com o heroísmo judaico-cristão. Nosso herói não está preocupado com um deus único, sempre a nos imputar pecado e culpa. Ele não se reporta a um deus, mas a muitos deuses, todos eles próximos das coisas humanas. A deusa Atena o protege, Poseidon o persegue e Zeus, o maior dos deuses, pode arbitrar o conflito de acordo com a conveniência política do Olimpo ou intervir diretamente, conforme seu desejo.
Os deuses gregos são imperfeitos, moralmente ambíguos, muito semelhantes aos homens. E, como não existe um padrão moral unificado, e essa é a beleza do politeísmo, Ulisses não é o herói “bom” do cristianismo.
Entre os deuses gregos não existe julgamento nem juízo final, e Ulisses se move num mundo em que as circunstâncias e as vicissitudes da vida é que vão determinar sua ação, de acordo com os preceitos que definem o herói na Antiguidade: a glória imortal, a excelência, a honra e o favor circunstancial dos deuses.
Embora tenha sido escrita entre 750 a.C. e 700 a.C., a Odisseia é extremamente atual porque, por meio de histórias e metáforas, conta a trajetória do ser humano diante da natureza e dos deuses hostis. A Odisseia mostra que a hospitalidade (xênia) é um valor central para os gregos e que a xenofobia leva, muitas vezes, à destruição. Mostra que a flor de lótus, assim como qualquer coisa que conduza ao prazer sem propósito, pode resultar no esquecimento da vontade de voltar e até de viver. Revela, ainda, a força das mulheres, como Penélope e Clitemnestra, que dão curso à história. E que Helena de Troia, a mais famosa das adúlteras, não foi assassinada por Menelau, seu marido traído, – ainda que se diga que foi sua beleza que a livrou do punhal ou da lapidação – e, após a guerra, reina ao seu lado em Esparta. A Odisseia é uma jornada pela vida e, de certa forma, nos ensina a viver. É preciso conhece-la, ainda que seja no cinema.
Publicada no jornal A Tarde em 07/08/2026