

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Os livros que li repousam em silêncio nas minhas estantes, aguardando somente o momento de serem reencontrados. E, quando voltam às minhas mãos, já não são os mesmos. Talvez porque também eu já não seja o mesmo.
Depois de muitos anos dedicados ao magistério superior, retornei recentemente à universidade, desta vez na condição de aluno, em um curso de pós-graduação na Universidade de Valencia, na Espanha. Como subproduto dessa experiência, recebi um presente inesperado: a descoberta da língua espanhola, esse idioma de Cervantes, de García Márquez, de Neruda e de tantos outros autores da minha predileção como leitor.
Foi assim que, outro dia, decidi revisitar El coronel no tiene quien le escriba, na sua versão original. Ocorre que as releituras, sobretudo na maturidade, têm algo de espelho: revelam menos o livro e mais quem nos tornamos.
Embora seja uma novela curta, Ninguém escreve ao coronel possui extraordinária densidade humana e política – a ponto de ser considerada pelo próprio Gabriel García Márquez uma de suas obras mais completas. Por trás da aparente simplicidade do enredo, esconde-se uma poderosa metáfora da condição humana e, em particular, da experiência latino-americana.
De imediato fiz um paralelo do velho coronel com outras figuras da nossa literatura. Vi nele algo do vaqueiro Fabiano, em Vidas Secas, de Graciliano Ramos; algo também de Severino, o retirante de Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto. Os três caminham sob o peso da escassez, enfrentando cotidianamente estruturas sociais excludentes e cruéis. São personagens condenados ao sofrimento, mas não ao silêncio.
Um ponto em comum nessas obras é a contenção verbal. A linguagem austera espelha a pobreza material dos personagens, como se o excesso de palavras fosse um luxo incompatível com a dureza da luta pela sobrevivência.
Outra associação inevitável foi com a música brasileira. O operário que Chico Buarque nos apresenta em Construção guarda alguma proximidade com o coronel de García Márquez. Não possuem sequer um nome que importe. Sobrevivem sob o signo a invisibilidade social, esmagados pela indiferença coletiva.
Mas foi no poema José, de Carlos Drummond de Andrade, onde identifiquei o diálogo mais profundo. José e o coronel habitam territórios semelhantes: ambos experimentam a solidão, a ruína das certezas e o esvaziamento das promessas. A diferença está na resposta que oferecem ao mundo.
José permanece completamente perdido diante do vazio. O coronel, embora cercado pela pobreza e pelo abandono, insiste. Continua esperando. Sua espera deixa de ser passividade para transformar-se em resistência.
Drummond pergunta: “E agora, José?”.
Garcia Márquez parece responder pela voz do coronel: “Continue esperando”.
O livro nos ensina que, mesmo quando tudo parece perdido, a esperança ainda pode ser uma forma de dignidade – e resistir, um modo de permanecer humano.
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