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PAULO AMILTON : E DE NOVO A VELHA RETÓRICA DA NOVA POLÍTICA

Redação - 06/06/2019 07:00

Os economistas clássicos denominavam, originalmente, a ciência econômica como Economia Política. A palavra economia vem do grego oikonomein, onde oikos significa casa e nomeingerenciar. Era a arte de administrar os poucos recursos da casa para que seus habitantes desfrutassem da maior quantidade possível desses com o objetivo de mantê-los vivos o maior tempo possível. Na moderna acepção do termo, e da ciência, é a arte de otimizar a utilização dos recursos escassos diante de necessidades infinitas da sociedade com o objetivo de aumentar o bem-estar social de indivíduos ou de uma coletividade em que esses estão inseridos.

Já a palavra política vem do grego politikáque, por sua vez, vem da palavra polis, que significa cidade, ou aquilo que é público, e tikos, que significa o bem comum de todas as pessoas de uma polis. Embora tenha um significado muito amplo, política está relacionada com soluções de problemas das pessoas que ocupam um espaço público com o intuito de gerar bem-estar àqueles que o utilizam. Para que isto aconteça é necessário um processo de diálogo. Não existe uma solução apenas para os problemas de uma coletividade. As diversas soluções para um determinado problema são cotejadas para que aquela que tiver maior número de simpatizantes ser escolhida. Não é necessariamente a melhor, mas a que recebeu mais acolhida dos membros de uma polis. Então, política envolve necessariamente conversas e trocasde apoio e isto não tem nada de errado ou é necessariamente corrupto.

A palavra economia tem ampla relação com política. Os economistas clássicos tinham consciência disto. Para eles qualquer escolha que envolvesse recursos afetavam toda uma coletividade e, portanto, deveria ser negociada com todos para que fosse implementada. Com base nisto, uma equação pode ser colocada para expressar esta relação. Esta seria:

EPP= µET + (1-µ)EP    (1)

 

Onde EPP = escolha de política pública;

ET = escolha técnica,

EP= escolha política

µ= percentual; onde 0≥µ≥1

 

 A equação (1) nos diz que qualquer EEP proposta pelo executivo, legislativo ou judiciário tem um percentual que se origina no contexto técnico da questão e outro que diz respeito ao ambiente político em que esta EPP é proposta. Diria até que (1-µ) é muito maior que µ. Ou seja, uma EPP pode ter a mais brilhante fundamentação técnica possível, mas se o ambiente político em que ela for proposta não for adequado, ela não tem a menor chance de ser aprovada. Vou dar alguns exemplos deste entendimento.

O governo Dilma 2 poderia apresentar qualquer EPP que o congresso a rejeitaria com folga porque o mesmo perdeu apoio político muito cedo no congresso. O governo Temer aprovou, entre outras, EEP’s bastante impactantes no bem-estar da população, tais como a lei do gasto e a reforma trabalhista, a despeito de ser chamado por vários de golpista. Não aprovou em plenário a reforma da previdência porque o senhor Rodrigo Janot, que exercia a função de Procurador Geral da República, abateu-a em pleno voo com a divulgação dos grampos do senhor Joesley Batista e do vídeo da mala de dinheiro do então Deputado Rocha Loures. A partir deste momento todo prestígio político do governo Temer foi utilizado para mantê-lo no poder e qualquer EPP que fosse sugerida não seria nem conhecida pelo mundo político.

Por que faço essas divagações? Faço-as porque o atual governo tem um discurso velho da implantação de uma nova política. Todo governante em começo de período para se diferenciar daquele imediatamente anterior lança a retórica de que é Novo. Até na religião isto acontece. A palavra evangelho significa a boa Nova de Deus. Todo profeta lançou uma Nova forma de se relacionar com Deus através de um evangelho. Jesus Cristo trouxe o Novo testamento para se contrapor ao Velho testamento.  Júlio Cesar quando impôs ao senado romano que o mesmo o nomeasse ditador vitalício denominou este período de Nova Roma. Getúlio Vargas para se diferenciar do período da política do Café com Leite denominou Era Vargas e impôs uma Nova constituição. Tancredo Neves para se diferenciar do período da ditadura militar quando assumiu anunciou a Nova república.  A candidata Marina Silva na eleição de 2014 tinha no seu programa de governo a intenção de fazer uma Nova política. Ou seja, esta retórica de propor o novo é mais velho do que tudo no mundo.

Neste sentido, o governo Bolsonaro tem que se mostrar disposto a dialogar com os representantes eleitos pelo povo para ter um EP favorável a aprovação de suas EPP’s.  O senhor Paulo Guedes pode ter montado uma equipe de gênios. Ter elaborado uma proposta de reforma da previdência incrivelmente bem elaborada. Mas se EP não estiver convencida da importância da ET não tem futuro nenhum e a tentativa de jogar uma parcela da população na rua para pressionar os políticos pode se transformar num tiro no pé. A proposta pode ser brilhante, mas tem que ser aceita pela maioria dos representantes do povo, no caso de uma democracia representativa, os políticos.

Aqueles podem não ser perfeitos, até porque ser humano perfeito, para a maioria de nós, só existe as nossas mães, mas os políticos representam o povo. Se os representantes não prestam, é porque o povo não presta. Mas o povo é um dado irremovível. Aceita que ele é de um jeito e pronto porque a alternativa é o extermínio. Já tentaram fazer isto. PolPot no Camboja, Stalin na URSS, Hitler na Alemanha nazista, entre outros. E todos tem em comum a alcunha de genocidas. Então, governo Bolsonaro deixa de besteira de dizer que quer a nova política e se senta para conversar, porque suas escolhas não são a verdade verdadeira das coisas.

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