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DECIFRANDO A BOLA DE CRISTAL AZUL

Redação - 19/12/2022 10:40

Uma das coisas que mais fascina a humanidade é decifrar o futuro. Algumas são fáceis de fazer, com base no exercício da profissão de cada um e de longos tempos vividos. Daí me arriscar a fazer algumas previsões para os anos seguintes desse Século XXI. Não vou falar em guerras, destruições, terremotos, cataclismas ou mesmo de acontecimentos interplanetários, mas de coisas boas que estão acontecendo aqui na Terra, tudo visto através das lentes do que estou chamando de bola de cristal azul. Aliás, para quem não sabe, o cristal de rocha azul é raríssimo, custa muito caro no mundo das construções e é na Bahia onde ele é encontrado com maior abundância. Na minha mesa de escritório tenho uma pequena esfera de rocha azul, presente de um amigo.

No campo da química, ciência iniciada pelos alquimistas, que procuravam encontrar a pedra filosofal, o elixir da vida ou descobrir um processo que transformasse os metais em ouro, temos novos caminhos. O hidrogênio, segundo os astrônomos, é o elemento químico mais abundante do universo, com 75% de ocorrência, volta a ser usado em maiorvolume. Desde que foi causador de grandes acidentes, quando era usado como gás nos dirigíveis e foi substituído pelo hélio, também abundante com cerca de 23% de ocorrência, ele foi esquecido. Os europeus, liderados pelos químicos alemães passaram a usar o carvão como principal fonte de matéria-prima e de geração de energia, foram substituídos pelos engenheiros químicos americanos que desenvolveram a petroquímica partindo do petróleo e do gás natural. O mundo foi invadido pelas resinas têxteis etermoplásticas e peloselastômeros,fertilizantes, defensivos, pigmentos, mas também por uma grande poluição e carbonização da superfície terrestre e do ar atmosférico.

Nos próximos anos o mundo se voltará para o hidrogênio como grande fonte de calor e eletricidade e como matéria-prima industrial. A Europa, que se acostumou a consumir o gás natural fornecido pela Rússia, se vê obrigada a seguir esse caminho, construindo fábricas de hidrogênio verde e chegando ao gás de síntese com a descarbonização do ar atmosférico. Mas vai continuar usando gás natural, recebendo-o liquefeito dos Estados Unidos. O problema está no preço. Para se ter uma ideia, o gás que importamos da Bolívia nos custou em novembro US$6,67/milhões de BTU e o gás liquefeito que veio dos Estados Unidos e foi desembarcado no terminal de regaseificação instalado nas proximidades da Ilha dos Frades, aqui na Baía de Todos os Santos, sem o custo do frete e da regaseificação, nos valeu US$62,95/milhões de BTU, também em novembro, já tendo custado US$75,08/milhões de BTU em setembro. O gás natural, rico em metano, vai ser usado ainda por muito tempo nos Estados Unidos, onde o shale gas está sendo vendido por cerca de US$6,00/milhões de BTU e conta com uma vasta e excelente infraestrutura de transporte através de dutos que cobre todo o país, inclusive se estendendo até o Alaska.

No Brasil, as grandes hidrelétricas vão deixar de ser construídas para dar lugar à energia eólica e solar fotovoltaica, sendo movimento que é liderado pela Bahia. A abundância dos ventos e da insolação do semiárido estão proporcionando energia elétrica a preços ditos convidativos, enquanto o governo não decidir cobrar imposto pelo vento e pelo sol. Pode-se notar a mudança de cenário dos telhados das casas com os coletores solares, na capital e no interior, com os painéis com as mágicas células solares vindas da China. Quanto à fonte de matéria-prima para os produtos químicos, o gás natural e o petróleo começam a ser substituídos paulatinamente pelo hidrogênio, tendo-se projetado várias fábricas, inclusive a maior delas que deverá em funcionamento em 2023 em Camaçari, aqui na Bahia.

Na Europa e na Ásia, onde o hidrogênio está chegando mais devagar, a Rússia está se safando da queda de venda do gás natural para a Europa ampliando suas vendas para a China e a Índia, colocando em funcionamento extensos gasodutos recém-construídos. Na América do Sul, a queda de produção do gás da Bolívia, motivada pela redução dos investimentos, vai ser compensada pelo gás de Vaca Muerta, da Patagônia argentina, onde existe a segunda maior reserva de shale gas do mundo, que em junho do próximo ano deve chegar à Buenos Aires. No Brasil, deve haver aumento de produção do gás no pré-sal e o início da exploração do gás na promissora Bacia Alagoas-Sergipe.

Como se vê, embora o assunto seja de vasta abrangência, é fácil se fazer previsão do futuro, principalmente se nos colocamos dentro do restritomercado de nosso campo de atuação profissional.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.) – [email protected]

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