sexta, 29 de maio de 2026
Euro Dólar

A NOVA TORRE DE BABEL – ARMANDO AVENA

Redação - 29/05/2026 05:25

No começo todos os homens falavam uma única língua, mas tornaram-se tão arrogantes que resolveram construir uma torre que pudesse alcançar a porta do céu. Queriam o poder total e, frente a tanta soberba, Deus confundiu-lhes a língua de modo que não se entendessem uns aos outros.

Muitos anos se passaram, mas no século XXI alguns homens resolveram recuperar a linguagem única, criar o idioma universal dos algoritmos, dos dados e das métricas e, assim, substituir a diversidade humana pela lógica e pela linguagem algorítmica.

Mas Deus está atento, e um dos seus representantes na Terra, o Papa Leão XIV, rebelou-se contra a Revolução Digital, a nova Babel, e apresentou aos fiéis  sua primeira encíclica, intitulada Magnifica Humanitas, que coloca a inteligência artificial no centro da reflexão moral e social da Igreja, como uma questão decisiva do nosso tempo, do mesmo modo que, frente à Revolução Industrial,  o papa Leão XIII deixou como legado a Rerum Novarum.

A analogia com a Torre de Babel é simbólica. Leão XIV usa a narrativa bíblica para dizer que a IA pode levar a humanidade a repetir um velho erro: acreditar que o poder técnico pode substituir os limites humanos, a ética e até a própria ideia de transcendência.  A encíclica reconhece o poder da inteligência artificial e os avanços que ela traz na saúde, na engenharia, na tecnologia e em todas as áreas do conhecimento humano, mas diz que as tecnologias não devem ser idolatradas.

A encíclica alerta para o óbvio: as tecnologias não são “neutras”; trazem em sua estrutura concepções de vida que envolvem ética, comportamento, ideias de organização social, política e econômica. A IA não é boa nem má, mas traz a tentação humana de centralizar o poder, eliminar as diferenças, homogeneizar o pensamento e as ideias e dominar a originalidade e a transgressão.

Leão XIV  coloca-se contra a idolatria do lucro e diz que a IA deveria estar a serviço de todos. Alerta para a falta de transparência dos modelos de dados, construídos de modo “opaco e unilateral”, feitos para obter lucro, quando deveriam estar orientados para o bem comum e para generalizar o conhecimento acumulado pela humanidade.  E retoma a máxima do Papa Francisco, reiterando que a  eficiência técnica e o lucro não podem se tornar o único critério para organizar a sociedade.

É bom ver a Igreja se posicionar contra o uso da  IA em guerras, na manipulação política e em sistemas que ampliam a desigualdade social. É bom ver a Igreja se posicionar contra a substituição massiva de empregos; a precarização do trabalho; e a concentração de riqueza nas grandes empresas de tecnologia.

É bom ver Leão XIV afirmar que  dados e algoritmos não podem ser controlados por uma elite tecnológica, que  a moral da IA não pode ser decidida apenas por empresas privadas e que os Estados precisam regular o setor.

Publicado no jornal A Tarde em 29/05/2026

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.