

A China recentemente adotou a estratégia de reduzir sua dependência de importação de alimentos, como medida de segurança alimentar, e esse é um dos movimentos mais relevantes no âmbito do comércio agrícola internacional contemporâneo. O País asiático tem de alimentar quase 20% da população mundial e dispõe somente de 9% das terras agricultáveis do planeta.
Nesse contexto, o governo chinês oficializou no décimo quinto Plano Quinquenal ( 2026-2030) o estabelecimento de metas estruturais para elevar a produção agropecuária doméstica. O Plano consiste na adoção de metas, visando alcançar a produção de 725 milhões de toneladas de grãos nos próximos anos, mediante o desenvolvimento de variedades de plantas de alta produtividade, resistentes a pragas e doenças, e mais resilientes a eventos climáticos extremos. Atualmente, a maior dependência de importações reside na soja , com o país importando 84% do volume consumido dessa leguminosa; o Plano prevê reduzir em até 25% as importações de soja até 2030.
Essa alteração de rota acendeu o sinal amarelo para o agronegócio brasileiro, já que mais de 70% de nossas exportações de soja e mais de 50% de nossas vendas externas de carne bovina se destinam ao mercado chinês. Nesse sentido, o Brasil terá de empreender um esforço importante na diversificação e conquista de novos mercados, inclusive para novos produtos agropecuários.
Parece claro que a China não vai zerar suas importações de soja e outros alimentos, mas pode diminuir suas compras do Brasil e aumentar suas aquisições de produtos de outros países, especialmente dos EUA, que pressionam o governo chinês nas negociações internacionais. Portanto, o mercado chinês não vai fechar totalmente para o agro do Brasil.
Os chineses não estão isolados nesse movimento. Essa tendência mundial está sendo observada em outras nações , como alguns países da União Europeia e do Oriente Médio, algumas nações árabes, a Índia, a Rússia e o Leste Europeu.
A Rússia, por exemplo, tem investido para deixar de ser um grande importador de carne de frango e suína e passou a apoiar fortemente a sua produção de trigo, além de ter diminuído suas exportações desse cereal e de fertilizantes , visando proteger sua própria segurança alimentar e o seu abastecimento interno.
Outro exemplo : a Arábia Saudita tem, como se sabe, fortíssimas limitações de terras para uso agrícola. Nesse contexto, sua estratégia consiste em continuar importando soja, milho e outros produtos componentes de rações , para produzir em seu próprio território carne de frango e de suínos em quantidades suficientes para seu suprimento interno, já que essas etapas de terminação das duas cadeias produtivas não exigem grande áreas de terras agrícolas. O Brasil agradece. . A propósito, empresas brasileiras, como a JBS, estão instalando unidades de grande escala para a produção e abate de aves e suínos neste país árabe. Outras companhias deste ramo poderão fazer o mesmo movimento neste e em outros países árabes com as mesmas limitações de disponibilidades de terras para uso agrícola.
Esses movimentos colocam desafios para o agro brasileiro, que terá de continuar diversificando exportações para mais destinos, contemplando um universo mais amplo de produtos, além de buscar a autossuficiência na produção de alguns alimentos estratégicos e essenciais para a nossa população, como é o caso do trigo. Ninguém aqui busca autossuficiência na produção de salmão, bacalhau, azeite de oliva e outros itens, mas o trigo é um produto super estratégico e essencial para a nossa segurança alimentar.
E finalmente, o governo precisa mostrar mais disposição para acelerar a redução das importações de fertilizantes, No universo dos adubos NPK, isso parece um pouco mais viável no caso da redução das importações de fertilizantes nitrogenados e fosfatados. No caso dos fertilizantes potássicos, dá para ir mais depressa que no ritmo atual. Aqui temos um projeto em Sergipe (Taquari-Vassouras ) que supre menos que 5% de nosso consumo interno , e uma mina em Autazes,no Amazonas, que reduzirá nossa dependência de importações em mais 20%. Ocorre que a mina está próxima de terra indígena reivindicada pelo Povo Mura , e o Ministério Público Federal contesta a legalidade das licenças ambientais emitidas pelo órgão ambienta estaduall, o Ipaam. O MPF exige que essa competência seja repassada ao Ibama. Alguns órgãos ambientais federais nesses casos costumam aumentar as exigências para os projetos seguirem adiante. O Brasil precisa avançar nesse projeto e os órgãos ambientais precisam ter mais compreensão de que este projeto é estratégico para o agro brasileiro e para o Brasil.
(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com