

A Bahia já possui uma indústria de base montada em vários setores e uma infraestrutura industrial bem estabelecida, inclusive dispondo de um contingente robusto de mão de obra especializada, contando com um polo petroquímico e vários distritos industriais. A construção da ferrovia Oeste-Leste e do Porto Sul, a recuperação das estradas e ampliação dos portos graneleiros e de contêineres, assegurariam um bom reforço para atração de novas indústrias e daria melhores condições de funcionamento das já existentes. O que precisa de maior atenção é a realização de investimentos que empurrem o encadeamento da produção para a frente. O que necessita de maior dedicação é o que pode ser feito para aproveitamento das vantagens existentes para reforçar os elos, gerar mais empregos e aumentar o valor adicionado local.
Um plano para fortalecer a indústria da Bahia deve apontar os setores de maior prioridade capazes de puxar o encadeamento, completando as cadeias de produção, interiorizando as novas fábricas e exportando menos matérias primas e produtos intermediários. Assim, a escolha recairia sobre os seguintes setores:
Agroindústria e proteína animal. A vantagem mais evidente e ainda subaproveitada. O oeste baiano (soja, milho, algodão, café) e o Vale do São Francisco (fruticultura irrigada) exportam grão e fruta, mas processam pouco aqui. Processar óleos, ração, suco, polpa, vinho e derivados lácteos/frigoríficos fixa emprego e reduz a dependência da commodity bruta.
Química e petroquímica de terceira geração. Camaçari dá a base de primeira e segunda geração; o salto é avançar para resinas, especialidades, química fina e transformação final, em vez de parar no insumo básico.
Energia renovável e a cadeia que vem com ela. Eólica, solar e, sobretudo, hidrogênio verde. O ponto-chave é não ser só gerador de energia para outros estados: atrair fabricação de componentes, serviços técnicos e indústria eletrointensiva que aproveite essa energia. A produção de hidrogênio verde e de amônia verde daria um grande salto em atendimento de forte demanda existente.
Mineração e metalurgia de maior valor agregado. Ferro, cobre, alumínio, níquel e terras raras existem no subsolo baiano. A reativação da metalúrgica de cobre, a recuperação do projeto de alumina e ativação das minas de ferro viabilizadas pela Fiol e Porto Sul. Fugir do insucesso histórico de extrair e embarcar. O plano deveria forçar beneficiamento, ligas e componentes aqui dentro.
Complexo da saúde, fármacos e biofármacos e química fina. Combina bem com a base química de Camaçari e com a rede de universidades. Setor de alto valor, menos dependente de logística e de ciclo de commodity. Fabricação de defensivos agrícolas e pigmentos para tintas e vernizes. São produtos de alto valor unitário usando na fabricação vários produtos químicos existentes na Bahia como matéria prima.
Mobilidade elétrica, autopeças e bens de capital. A chegada da montagem chinesa de veículos elétricos reabre a janela para autopeças. O foco deveria ser atrair a cadeia de fornecedores (autopeças, baterias, componentes) para não repetir o modelo de “montadora isolada”.
Setores intensivos em mão de obra com upgrade tecnológico. Têxtil/confecção, couro e calçados. Empregam muito, mas precisam de design, marca e automação para competir. Junto deles, economia do mar (portos, reparo naval, pesca industrial) e serviços digitais e TI em Salvador.
Complexo portuário-industrial e economia do mar. Com Aratu-Candeias, Salvador e Ilhéus, faz sentido naval, reparo, logística industrial e pesca e processamento de pescado — usando o litoral como ativo, não só como corredor de exportação. Melhor aproveitamento dos terminais privados da Baía de Todos os Santos e seus entornos.
Tecnologia, software e economia digital. A aposta de menor custo de capital e maior retorno de longo prazo, ancorada no polo de TI de Salvador e nas universidades. Serve também de serviço técnico para todos os setores acima.
Na prática isso seria organizado em três fases: a) Curto prazo – agroindústria, química de terceira geração e turismo industrial; b) Médio prazo – energia renovável, saúde/biofármacos; e Longo prazo – tecnologia, economia do mar e transformação final.
Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.)