

Entrevista com o vice-presidente da Acelen: Marcelo Lyra
P: O que é que você considera a principal transformação que aconteceu na Refinaria de Mataripe nos últimos quatro anos
Marcelo Lyra: Já começamos pela pergunta mais difícil, né? Eu acho que é muito complexo escolher apenas uma das muitas transformações que aconteceram neste período.
P: Eu vou mudar a pergunta, então. Do que você sente mais orgulho neste período?
ML: A gente fez uma campanha chamada “Mataripe é outra refinaria”. Quando a gente usa essa frase, acabamos abarcando uma série de coisas que nos orgulham. Pegamos um ativo que estava precisando de muitos investimentos. Quatro anos depois, foram R$ 4 bilhões de investimentos. O nosso foco foi em duas questões muito importantes: primeiro, firmeza e garantia de produção. Saímos de uma média de 205 mil barris processados por dia e fomos para a média de 270 mil. Fizemos isso com confiabilidade. Existe um processo de modernização dentro da refinaria que é visível onde a gente colocou a mão. Segundo, tivemos uma evolução na parte ambiental e social muito significativa. Economizamos 22% de água, o que equivale ao consumo de uma cidade de 80 mil habitantes. Em eficiência energética, tivemos uma redução de consumo de 11%, o que equivale ao consumo residencial do estado de Roraima, que tem 750 mil habitantes.
P: É um número gigantesco.
ML: Tem também um trabalho que é um pouco “invisível”, que é o trabalho social com as Osid (Obras Sociais Irmã Dulce) e a parceria com os conselhos comunitários. É um trabalho de formiguinha, levando conceitos de empreendedorismo, educação e cidadania para as comunidades. Agora, pessoalmente, o que mais me motiva é que, lá atrás, quando criamos a Acelen, que ganhou este nome para trazer a ideia de aceleração, energia e excelência, o nosso objetivo era ser relevante na transição energética. Há 40 dias, tivemos o Final Investment Decision (FID) do projeto de renováveis. Aquele momento é uma consolidação de quase 4 anos de trabalho, mostrando que nossa intenção de ter um pé no fóssil para dar alicerce à aceleração para o baixo carbono vai se concretizar.
P: Eu lembro que desde o início essa questão da energia renovável já estava no horizonte de vocês.
ML: Exatamente. Meio que o “walk the talk”, você está andando e mostrando o que está fazendo, executando o que fala. Nem sempre é fácil nas corporações. Quando eu entrei na Acelen, a promessa era essa e hoje está mais perto de ser concretizada. Temos também o trabalho do “Jornada Jovem” em regiões de vulnerabilidade social. É impressionante como tem talento escondido por aí. É uma meninada com “faca nos dentes” para produzir, precisando apenas de um pouco de qualificação. Na última edição, tivemos uma seleção com 3.000 candidatos para 100 vagas. Foi quase um vestibular para medicina.
P: A Acelen é uma empresa privada, mas ocasionalmente é inserida no debate da formação de preços. Como vocês enxergam essa questão?
ML: Enxergamos como qualquer investidor privado: a formação de preço deve considerar a lei de mercado, oferta e procura, e as referências globais. Por isso o Preço de Paridade de Importação (PPI) faz sentido, uma vez que o Brasil é um importador estrutural de gasolina e diesel. Não entendemos como pode ser diferente para o refino privado. Nenhuma empresa sobreviveria sem praticar preços de mercado. O problema é que estamos no meio do caminho, no Brasil. Se 50% do refino fosse privado, como era o acordo original com o CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica), a própria Petrobras não teria o peso de carregar sozinha um subsídio para a população, porque o mercado se ajustaria. Precisamos de um programa de estímulo ao refino privado e clareza regulatória. A Petrobras naturalmente prioriza o E&P (Exploração e Produção) porque ganha muito mais dinheiro lá do que no refino.
P: Nos últimos meses, voltamos a ver discussões sobre uma eventual recompra da refinaria pela Petrobras. O que tem de fato nisso?
ML: Esse é um tema que o Mubadala (proprietário da Acelen) comenta. Nós, como executivos, focamos em fazer o ativo performar bem para ter liquidez no futuro, seja para a Petrobras ou qualquer outro comprador.
P: Como a instabilidade internacional afeta o planejamento de vocês?
ML: Nosso negócio é de margem, “crack margin”. Eu gosto sempre de dizer que somos “fazedores de sanduíche”, como o McDonald’s. O nosso boi é o petróleo, ele chega, a gente o retalha em picanha, filé, etc. Esta é uma analogia muito interessante para o refino de petróleo porque é exatamente como acontece, transformamos ele em diversas produtos. O que nos dá rentabilidade é a margem do craqueamento de cada produto. O GLP, por exemplo, é terrível, tem margem negativa, a gente só perde dinheiro com ele, mas é importante por causa do apelo social. O que nos move é a margem da gasolina, do querosene de aviação e combustível de navio. Embora o preço do petróleo oscile, a margem de refino global está estável. Aprendemos a olhar a curva média e não o nervosismo diário do mercado.
P: E a transição energética? Como enxergam esse cenário de redução no uso de petróleo?
ML: Nós enxergamos que o cenário é mais de uma adição energética, do que um processo de substituição. Veja, com o uso do petróleo lá atrás, o carvão, por exemplo, perdeu relevância na matriz, mas o consumo, em números absolutos, hoje é similar ao de 100 anos atrás. A base continuará sendo o petróleo, mas o crescimento da demanda por energia, com a IA (inteligência artificial) e os data centers, será suprido por energia nova e aí entram as renováveis. Isso permite uma transição justa, sem inflação que agrida as classes mais pobres. O petróleo é um “carbono ancestral”, depreciado pela natureza em milhões de anos. As novas tecnologias vão precisar de tempo para serem competitivas frente a isso.
P: Falando em renováveis, vocês têm o projeto da Macaúba. Em que estágio ele está?
ML: Ultrapassamos o ponto de não retorno com a aprovação do Project Finance com 12 bancos. Serão US$ 3 bilhões de investimento: metade na biorrefinaria e metade no agro. Teremos 150 mil hectares de Macaúba. Já temos o Agripark, um centro tecnológico que produzirá 10 milhões de mudas de alta performance por ano. Usamos braços robóticos e laser para fazer a escarificação da semente. Isso aumenta o índice de germinação de 3% para mais de 80%.
P: E quais são os resultados esperados?
ML: Projetamos 1 bilhão de litros de SAF (combustível sustentável de aviação) ou Diesel Verde por ano a partir de 2029. Temos flexibilidade para produzir qualquer proporção entre eles. O mercado hoje foca no SAF porque não dá para ter avião elétrico com autonomia; a descarbonização da aviação passa obrigatoriamente pelos biocombustíveis. A lei do Combustível do Futuro no Brasil já estabelece mandatos de mistura que começam no ano que vem.
P: O Brasil tem condições para liderar esse mercado?
ML: O Brasil é a “Arábia Saudita da fotossíntese”. Temos um diferencial competitivo gigantesco. Mas precisamos de instrumentos de financiamento mais agressivos, regulação clara do mercado de carbono e maior protagonismo global. O Brasil precisa “sentar na janelinha” nessas discussões internacionais.
P: Daqui a 10 anos, qual será o carro-chefe da Acelen?
ML: A visão do Mubadala prevê até cinco módulos de biorrefinaria. Em 10 anos, espero que os setores fóssil e renovável estejam se equilibrando através da adição energética, embora o combustível fóssil ainda tenha uma relevância muito grande.
Entrevista ao jornalista Donaldson Gomes, publicada originalmente no jornal Correio
Foto: Sergio Zacchi/Divulgação