

Quando Vitangelo Moscarda descobriu que seu nariz pendia para a esquerda, sua vida mudou. Foi sua esposa a primeira a alertá-lo, com certa satisfação, diga-se de passagem, e o espelho, o maldito espelho, mostrou a ele, após esse aviso fatal, a deformidade em toda a sua inteireza.
Deu-se conta, assim, de que ele não era para os outros aquilo que, até então, pensava ser. Ele, que pensava ser um, era visto de forma diferenciada pelos outros, que o enxergavam com aquele nariz pendente. O pior é que ele não podia se ver como os outros o viam, não podia colocar-se à parte para se ver vivendo. E concluiu, decepcionado, que ele não era um, como pensava, nem dois, assumindo que havia apenas um Moscarda com aquele nariz caído que ele não via, mas muitos, pois cada pessoa o via não como ele era e, sim, como parecia ser.
Vitangelo Moscarda sentiu-se sequestrado de si mesmo no momento em que descobriu que, para os outros, ele não era ele, mas sim o que as pessoas achavam que ele era. Teve certeza, então, de que, independentemente de para que lado pendia seu nariz, alguém o achava pedante, outro, inteligente, aquele o considerava antipático, aquele outro, de uma simpatia a toda prova. E, assim, o pobre Moscarda descobriu que podia ser um, nenhum e cem mil.
O que ocorreu com Vitangelo Moscarda, personagem do romance Um, nenhum e cem mil, de Luigi Pirandello, acontece, e sempre aconteceu, desde que o homem passou a viver em sociedade.
Cada pessoa não vê você como você é, mas como pensa que você é. E a dúvida é mortal: somos o que somos ou aquilo que os outros pensam que somos?
“O inferno são os outros.” A célebre frase de Jean-Paul Sartre dá a medida certa do que representa viver sob o olhar do outro. O inferno nasce do olhar alheio, do outro que nos vê, nos julga e nos atribui uma identidade.
No século XXI, porém, o inferno sartriano ganhou uma dimensão extraordinária com o advento das redes sociais. Com elas, criamos uma espécie de mercado da aprovação, em que cada like, cada compartilhamento, cada comentário funciona como uma pequena confirmação de que existimos e somos interessantes, bonitos, inteligentes ou relevantes. Mas esse é também um mercado de desaprovação e, de repente, um desconhecido qualquer pode dizer que seu nariz pende para a esquerda e, assim, acabar com sua autoestima e aporrinhar seu dia.
A opinião dos outros, o número de seguidores, curtidas e compartilhamentos tornam-se o inferno contemporâneo, e foi você mesmo quem abriu a porta. “Lasciate ogne speranza, voi ch’intrate!”
“Nem esperança, nem socorro, nem remédio”, diria Shakespeare. Talvez, mas a Meta, dona das redes sociais, enfrenta os tribunais, e vinte e nove estados americanos propõem suprimir o feed infinito, os likes e a prisão algorítmica. Assim, quiçá seja possível evitar que a humanidade se transforme em uma multidão de Moscardas.
Publicado no jornal A Tarde em 21/08/2026