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BAHIA, PERNAMBUCO E CEARÁ: O DILEMA DA OPOSIÇÃO NO NORDESTE

Redação - 20/07/2026 09:00 - Atualizado 20/07/2026

As eleições de 2026 estão impondo à oposição um desafio estratégico particularmente complexo na região Nordeste. As pesquisas de opinião continuam mostrando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva como o nome preferido da maioria dos eleitores da região, o que transforma a disputa pelos governos estaduais em um delicado exercício de equilíbrio político. O candidato oposicionista precisa enfrentar governadores ou candidatos apoiados por Lula sem se afastar de um eleitorado que, ao mesmo tempo, pretende votar no presidente.

Esse é o grande dilema da oposição nordestina: qual candidato à Presidência apoiar? E, sobretudo, como fazer isso sem comprometer as chances na disputa estadual?

Na Bahia, esse impasse já foi testado na prática. Em 2022, ACM Neto procurou evitar o confronto direto com Lula adotando a estratégia do “tanto faz” em relação à eleição presidencial. A tentativa de separar as duas disputas, porém, não funcionou. Durante a campanha, consolidou-se entre os eleitores a percepção de que ele representava o campo contrário ao presidente, enquanto Jerônimo Rodrigues foi identificado como o candidato de Lula. O resultado foi a vitória do petista, contrariando as expectativas iniciais. A experiência baiana tornou-se uma advertência para toda a oposição nordestina.

Agora, o quadro volta a se repetir, mas de forma ainda mais complexa. ACM Neto sinaliza apoio ao governador de Goiás, Ronaldo Caiado, na disputa presidencial. Ao mesmo tempo, seu principal aliado na corrida ao Senado, João Roma, e o prefeito de Feira de Santana, José Ronaldo, já declararam apoio ao senador Flávio Bolsonaro. Por outro lado, muitos prefeitos e vereadores no Estado estão espalhando santinhos com a foto de Lula e ACM Neto juntos. Isso evidencia a dificuldade  de se posicionar no primeiro turno, afinal, Caiado busca ocupar um espaço de centro-direita e está atacando Flávio Bolsonaro, o que pode aumentar a rejeição ao bolsonarismo que permanece elevada no Nordeste. Por outro lado, não se sabe que efeito terá a proposta de voto descolado, aquele que crava o nome de Lula e do governador de oposição.

No Ceará, a situação apresenta outra nuance. Ciro Gomes voltou ao cenário estadual como principal adversário do governador Elmano de Freitas, candidato à reeleição e apoiado por Lula. Entretanto, apesar das críticas contundentes ao presidente Lula, Ciro evita vincular sua candidatura ao bolsonarismo e afirma que não apoiará Flávio Bolsonaro. Sua estratégia é tentar construir uma alternativa independente, preservando pelo menos parte do eleitorado de Lula.

Em Pernambuco surge um paradoxo ainda maior. Ali, os principais candidatos ao governo procuram aproximar-se de Lula. O motivo é evidente: poucos políticos desejam abrir mão do prestígio eleitoral do presidente em um dos estados onde ele mantém sua maior força política. O problema é que Lula não poderá apoiar todos. Em algum momento, será obrigado a escolher um palanque principal, correndo o risco de desagradar aliados tradicionais e provocar rearranjos na política estadual.

O fenômeno não se restringe a esses três estados. Em praticamente todo o Nordeste, candidatos de oposição procuram regionalizar o debate, concentrando suas campanhas em problemas locais — segurança pública, saúde, infraestrutura e gestão administrativa — evitando transformar a eleição estadual em um plebiscito sobre o governo federal. Essa postura decorre da percepção de que confrontar Lula diretamente pode custar votos decisivos.

O cenário revela uma característica singular da política nordestina. Diferentemente de outras regiões do país, a eleição para governador dificilmente pode ser dissociada da disputa presidencial. O apoio ou a rejeição ao presidente Lula influencia fortemente o comportamento do eleitor, impondo limites às estratégias dos candidatos estaduais.

A oposição enfrenta, portanto, uma equação difícil. Se abraçar um candidato presidencial identificado com o bolsonarismo, corre o risco de perder eleitores moderados que aprovam Lula. Se optar por um nome de centro-direita, como Caiado, pode enfrentar resistência do eleitorado mais conservador e até divisões dentro da própria coalizão, como já ocorre na Bahia.

Por outro lado, o próprio Lula também terá de administrar um desafio. Seu capital eleitoral continua sendo o ativo mais valioso do Nordeste, mas exatamente por isso desperta a disputa entre aliados que desejam carregar sua imagem nas campanhas estaduais. Em alguns estados, será impossível atender a todos. A escolha de um palanque significará, inevitavelmente, o afastamento de outros parceiros.

No fim das contas, o maior dilema das eleições nordestinas talvez não seja apenas quem enfrentará Lula, mas como enfrentá-lo. Até agora, a experiência demonstra que tentar ignorar sua influência não tem produzido bons resultados. E é justamente essa realidade que faz da sucessão presidencial um fator decisivo nas disputas pelos governos estaduais da região. (EP- 20/062026)

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