

A democracia é o único sistema de governo que permite a convivência dos contrários. Por isso, a liberdade do ex-presidente Lula, longe de se constituir um perigo para a democracia brasileira é, ao contrário, um caminho para o seu aperfeiçoamento. A liberdade de Lula vai, é verdade, resultar no aumento da polarização entre esquerda e direita, uma polarização que já existe desde as eleições de 2018 e é alimentada pela falta ou pela inexpressividade de lideranças de centro.
A liberdade de Lula vai, isso sim, fortalecer a oposição, que estava enfraquecida e meio perdida, com seu líder na cadeia, mas isso é ótimo para a democracia que é em essência um sistema onde as posições opostas se digladiam e o povo escolhe a que mais atende seus interesses naquele momento.
Além disso, solto Lula, o governo Bolsonaro terá de se posicionar melhor no tabuleiro político e evitar a fabricação de crises domésticas oriundas do próprio do governo. Há uma falsa ideia de que na democracia, após eleito, o presidente tem todo o direito de governar como quer. Nada mais longe da verdade, na democracia eleito o governante ele tem de mostrar que tem capacidade de implementar seu plano de governo e fazer isso enfrentando a oposição. O presidente Jair Bolsonaro estava implementando sua proposta de governo, sem oposição, ou com uma oposição fraca e desarticulada, por isso se dava ao luxo de criar crises internas.
A liberdade trouxe Lula de volta ao ringue, como principal adversário do atual presidente, o que, na verdade, ele nunca deixou de ser, apenas estava preso em Curitiba. E isso pode colocar no ringue um novo Bolsonaro, que terá de medir suas palavras, controlar seus filhos incontroláveis e negociar melhor seus projetos no Congresso, pois senão haverá um critico feroz à espreita para denunciar seus erros. Assim, com relação ao governo, o que vai acontecer a partir de agora é que o presidente Jair Bolsonaro vai ter de se mostrar a altura do novo momento e terá de fazer política com mais habilidade e sem gerar tantas crises. E a oposição vai ter de mostrar que a proposta do governo atual não é adequada ao Brasil e apresentar sua proposta.
Democracia sem conflito não é democracia é ditadura. O efeito principal da liberdade de Lula é o fortalecimento da democracia e o resultado disso será o confronto entre duas formas de ver o Brasil. Que vença a melhor, tendo sempre em mente que as regras democráticas não podem ser quebradas e que o resultado do jogo só será conhecido em 2022.