

Mini bio
André Machado Júnior é CEO da Maida Health, healthtech ligada ao ecossistema MV, com mais de 20 anos de atuação em gestão para planos de saúde. Executivo com 21 anos de experiência no mercado, tem trajetória marcada pela condução de projetos complexos voltados à melhoria da relação entre empresas, operadoras e usuários, com foco em eficiência, qualidade assistencial e controle de custos. É especialista em Atenção Primária à Saúde, Regulação, Atendimento ao Beneficiário e estratégias de Promoção e Prevenção em Saúde, além da gestão de grandes equipes.
Bahia Econômica – Como o senhor avalia o impacto da saúde suplementar nos custos do setor na Bahia?
André Machado – A saúde suplementar na Bahia segue a mesma dinâmica do restante do país: custos crescendo acima da inflação, pressionados muito mais por questões estruturais do que apenas clínicas. Hoje, a sinistralidade do setor gira em torno de 80%, o que significa que a maior parte da receita já está comprometida com despesas assistenciais. Ao mesmo tempo, estudos indicam que entre 30% e 40% dos gastos em saúde são desperdícios. Isso mostra que o principal problema não é falta de recursos, mas, sim, a forma como são utilizados. Ainda operamos com um modelo muito orientado ao tratamento da doença e pouco focado na gestão da saúde ao longo do tempo. Esse desalinhamento é um dos principais fatores de pressão sobre os custos.
Bahia Econômica – Quais políticas podem ser adotadas nas empresas visando minimizar desperdícios e melhorar eficiência?
André Machado – As empresas precisam assumir um papel mais estratégico na gestão da saúde, indo além do financiamento. Hoje, cerca de 70% dos beneficiários estão em planos empresariais, o que coloca as companhias no centro dessa discussão. Na prática, isso passa por três frentes. A primeira é a gestão do cuidado, com fortalecimento da atenção primária, acompanhamento de pacientes crônicos e uso de dados para direcionar decisões mais eficientes. A segunda é tratar a saúde mental como prioridade. O tema já impacta diretamente produtividade e custos e tende a ganhar ainda mais relevância nos próximos anos. O Brasil teve cerca de meio milhão de afastamentos por transtornos mentais em 2024, e empresas que investem em bem-estar podem ter retorno de até duas vezes o valor aplicado. Além disso, pesquisas indicam que cerca de 50% das empresas pretendem ampliar investimentos em programas de saúde nos próximos anos. Um sinal claro de mudança estrutural. Por fim, é essencial integrar saúde assistencial, mental e ocupacional. Quando essas áreas são tratadas de forma isolada, há perda de eficiência. Empresas mais maduras já trabalham com dados integrados de absenteísmo, riscos psicossociais e histórico clínico para atuar na causa dos problemas, e não apenas nas consequências. No fim, o maior desperdício não está apenas no excesso de uso, mas na falta de coordenação do cuidado.
Bahia Econômica – Quais novos projetos a Maida Health está trazendo para a Bahia?
André Machado – A Maida Health atua justamente em um dos pontos mais críticos do sistema, que é melhorar a qualidade da decisão em saúde e reduzir desperdícios estruturais. Na Bahia, um projeto recente em um plano público com centenas de milhares de beneficiários mostrou esse impacto na prática: um modelo de acompanhamento assistencial em tempo real durante internações hospitalares evitou mais de R$ 23 milhões em custos ao longo de 2025, além de reduzir o tempo de permanência e trazer mais previsibilidade ao gasto assistencial. O acompanhamento ocorre ao longo de toda a internação, com identificação precoce de riscos clínicos e operacionais, permitindo intervenções antes que evoluam para eventos mais graves e onerosos.
Bahia Econômica – Qual a sua opinião sobre a grande quantidade de cursos de medicina que estão surgindo?
André Machado – Ampliar a formação médica pode ser positivo, desde que esteja alinhado à qualidade e ao modelo de saúde que o país precisa. Mais médicos não significam, necessariamente, melhor assistência, especialmente se a formação não acompanhar as demandas reais do sistema. Hoje ainda formamos muitos profissionais com foco no procedimento e na doença, enquanto o sistema exige cada vez mais capacidade de coordenação do cuidado, visão integral do paciente e gestão da saúde ao longo do tempo. Além disso, é fundamental ampliar o acesso com qualidade, especialmente em regiões onde ainda há escassez de atendimento. Nesse sentido, o SUS oferece aprendizados importantes, sobretudo na atenção primária e na organização do cuidado no território. Mais do que aumentar o número de profissionais, o desafio é formar médicos preparados para um sistema que exige integração, eficiência e cuidado contínuo.
Bahia Econômica – Diante do aumento contínuo dos custos, quem deve arcar com a conta da saúde suplementar no Brasil? Há um limite para esse modelo atual?
André Machado – A conta já é compartilhada entre todos os envolvidos e o sistema já opera próximo do limite. Não há mais espaço para simplesmente redistribuir custos. O modelo atual está pressionado e tende a se tornar cada vez mais restritivo se nada mudar. O debate não deveria ser sobre quem paga mais, mas sobre como gastar melhor. Há um volume relevante de desperdícios estruturais que, se enfrentados, permitem reequilibrar o sistema sem necessariamente elevar o custo total.
Bahia Econômica – O modelo atual, baseado majoritariamente em planos empresariais, é sustentável no longo prazo?
André Machado – O modelo empresarial ainda é relevante, mas está sob pressão crescente. Os reajustes dos planos coletivos variam conforme o uso, o que pode gerar aumentos significativos de custo em curto prazo e dificultar a manutenção do benefício pelas empresas. Se não enfrentarmos os desperdícios e não avançarmos na integração de dados e na transformação digital, a tendência é que esse modelo se torne cada vez mais restritivo ao longo do tempo. A sustentabilidade passa por uma mudança de lógica: sair do volume para valor, do uso para o cuidado e da fragmentação para a coordenação. Nesse sentido, o SUS traz uma referência importante, especialmente na organização do cuidado ao longo da jornada do paciente.
Bahia Econômica – Como o uso de dados e inteligência artificial pode reduzir desperdícios na prática?
André Machado – Dados e inteligência artificial permitem atuar diretamente na origem dos desperdícios. Na prática, isso significa identificar padrões de uso inadequado, antecipar agravamentos de pacientes crônicos, apoiar decisões clínicas mais assertivas e reduzir conflitos e judicialização. Hoje já utilizamos inteligência artificial para apoiar a regulação médica, tornando o processo mais ágil e qualificado. Em média, 91% das análises já contam com apoio de automação, o que traz mais consistência e embasamento para a tomada de decisão. Outro ponto fundamental é a integração dos dados. O prontuário eletrônico precisa acompanhar o paciente ao longo de toda a sua jornada. Quando há interoperabilidade, evitamos desperdícios como a repetição de exames desnecessários e melhoramos a qualidade do cuidado. Esse conjunto de iniciativas permite migrar de um modelo reativo para uma gestão mais ativa da saúde. E há um ponto central: é possível reduzir desperdícios de forma relevante, potencialmente em dois dígitos, sem comprometer o cuidado, apenas organizando melhor o sistema.
Bahia Econômica – Gostaria de ressaltar mais alguma informação?
André Machado – A saúde suplementar não enfrenta um problema de falta de recursos, mas de modelo e de cultura de uso. Com sinistralidade elevada e desperdícios relevantes, o sistema já opera muito próximo do limite. O desafio agora é mudar a forma como a saúde é gerida, com mais uso de dados, melhor coordenação do cuidado e decisões mais eficientes ao longo da jornada do paciente. O futuro da saúde não está em gastar mais, mas em gerar mais valor com o que já é investido.



