

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
“Segue o teu destino, rega tuas plantas, ama tuas rosas. O resto é sombra de árvores alheias”
Fernando Pessoa.
Agenor de Oliveira (Cartola), conhecido como Poeta das Rosas, disse que as rosas não falam, mas, em linguagem poética, no seu silêncio misterioso, dizem mais que mil palavras. Talvez seja isso que o poeta francês Paul Valéry tenha sugerido ao escrever que uma flor é um poema sem palavras.
Presença constante na poesia e na música, poucas imagens são tão literárias quanto as flores. No mundo encantado da literatura, multiplicam-se para assumir inúmeros significados: beleza e virtude, fragilidade e permanência, afeto e perda, vida e morte.
Rosas — amor e paixão; lírios — pureza e candura; margaridas — inocência e delicadeza; girassóis — esperança e luz; flores secas — memória e nostalgia.
As rosas não falam, simplesmente exalam o perfume que roubam da mulher amada. Pode haver verso mais representativo do amor puro e sincero?
“Uma flor nasceu na rua! Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.” Nos versos exatos do Poeta de Itabira, a flor é resistência silenciosa diante da dureza do mundo — frágil e, entretanto, invencível. Já para Mário Quintana, os jardins — e as flores — representam a vida interior bem cultivada: “O segredo não é correr atrás das borboletas… É cuidar do jardim para que elas venham até você”.
Os poetas parecem saber que nenhuma imagem é mais fiel à vida do que uma flor: nasce em silêncio, abre-se à luz e desaparece sem alarde. E talvez por isso cada verso traga consigo um pouco de perfume, como se também procurasse cumprir discretamente o seu destino.
Um quintal esquecido, um jardim na infância, um bosque distante: flores são pequenas engrenagens que movem a memória e despertam ressonâncias nos porões do esquecimento.
Na música, as flores ganham voz. Cantam o amor que ficou, a saudade que persiste, a esperança que insiste. Como uma flor, a vida pode ser breve e passageira — e, ainda assim, bela, marcante, misteriosa, com um perfume que se sente sem nunca se poder definir. “É bonita, é bonita e é bonita…”
Quem se detém diante de uma flor, ainda que por um instante, aprende algo que nenhum livro ensina. Que os poetas continuem contemplando os jardins e escrevendo com as flores. Porque, enquanto houver uma única flor desabrochando em silêncio, a poesia ainda terá onde pousar.
Imagem de Thought Catalog por Pixabay