sexta, 24 de abril de 2026
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MEMÓRIA E PERMANÊNCIA – POR SÉRGIO FARIA

João Paulo - 24/04/2026 05:00

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras

Na celebração de um centenário — tradição que a Bahia cultiva com reverência — dá-se um fenômeno raro: os tempos se entrelaçam. O passado retorna e se oferece como memória viva, o presente o acolhe com emoção, e ambos se projetam como lição para o futuro.

No caso de Geraldo Leite, médico, professor e intelectual, há um privilégio ainda maior: celebra-se não apenas a memória, mas a presença. Cem anos que não repousam na história — sempre de bom humor, o homenageado esbanja vigor físico e intelectual.

Mas o que, afinal, condensa um século de vida?

Não são apenas os diplomas, embora numerosos. Nem os títulos, ainda que justos. Tampouco as salas de aula, onde sua presença marcou gerações. Nem mesmo a medicina, que não se limitou a exercer, mas elevou à dignidade do ofício. Não bastariam, ainda, sua dedicação às letras, às artes, ao ideal rotário, nem a impressionante obra institucional que ajudou a semear pelo mundo.

Tudo isso é vasto — mas não é o essencial.

O verdadeiro legado de Geraldo Leite reside na forma como viveu e vive: com fidelidade rara ao que importa — o outro. Sempre o outro.

Seus alunos extrapolam os limites da sala de aula. Todo aquele que com ele convive torna-se, de algum modo, discípulo. Aprende-se com seus gestos, com seu rigor sereno, com sua ética silenciosa. Aprende-se, sobretudo, aquilo que não se ensina nos livros. Porque há ensinamentos que não se explicam — transmitem-se.

Mais extraordinário do que alcançar cem anos é habitá-los com coerência. Viver cada dia com serenidade, educação, tolerância, empatia, respeito e uma disposição incansável para servir. Há vidas longas; há vidas plenas. Raras são as que conseguem ser ambas.

Ao celebrar seus primeiros cem anos, não reverenciamos apenas um homem ou sua trajetória. Celebramos uma permanência — uma existência que transborda a própria duração e se inscreve na vida dos outros.

Geraldo Leite não é somente exemplo: é prova. Prova inconteste de que a dignidade ainda é possível, de que o caráter ainda é força transformadora, de que vale a pena acreditar no ser humano como instrumento de um mundo mais justo, mais fraterno — e, sobretudo, mais humano.

 

Imagem de duy đỗ por Pixabay

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