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O DIA DOS MORTOS – ARMANDO AVENA

Redação - 03/11/2023 08:07 - Atualizado 03/11/2023

O que pode um cronista dizer ao seu leitor no dia que sucede imediatamente ao dia de Finados? Pode-se dizer, para começar, que a frase que dá início a essa crônica não precisaria ser tão longa, mas não há antônimo para a palavra véspera. Se fosse em inglês seria mais fácil, bastaria dizer day after , mas o problema é que não existe este dia no calendário norte-americano, a não ser nos locais de forte influência mexicana onde se comemora o El dia de los muertos.

Humm, creio que esse início vai afugentar meu leitor e não vai adiantar dizer que no México é uma festa animada, com muita bebida, comida e música para receber os mortos que nesse dia têm a permissão de Deus para virem visitar os parentes e os amigos. Aliás, não sei se isso ia dar certo no Brasil. Por aqui, o Dia de Finados tem outra conotação, é um dia de tristeza em que se lembra os mortos e se reza por eles. É, de certa forma, um dia de penitência já que cumpre ir aos cemitérios para estar com os que se foram e relembrá-los, ainda que não seja necessário visitar necrópoles para recordar aqueles que amamos e que sempre estarão conosco independente do dia estabelecido.

 Há que dizer, porém, que o cronista se engana ao tratar a visita aos cemitérios como uma penitência, afinal, muitos deles são visitados anualmente por milhares de pessoas, como o de  Père Lachaise em Paris, onde, entre outras esculturas,  uma esfinge alada voa sobre o túmulo de Oscar Wilde. “Decifra-me ou te devoro”, parece dizer a imagem e foram muitos os que deixaram beijos vermelhos no bloco de granito, como se assim decifrassem o enigma. Highgate, o cemitério de Londres, também encanta com a tumba de Karl Marx reinando com seu busto colossal. Mas não espere ver lá, meu caro leitor, os reis e príncipes da velha Albion, cujos corpos dormem em catedrais e abadias.

E não há beleza apenas nos cemitérios europeus, em Salvador, no cemitério Campo Santo, pode-se ver, o túmulo de Antônio Lacerda, que nos legou o mais conhecido cartão postal da cidade da Bahia e o mausoléu do poeta Castro Alves ali sepultado quando de sua morte, embora hoje repouse aos pés de sua estátua na Praça Castro Alves.

Oh! eu quero viver, beber perfumes/Na flor silvestre que embalsama os ares;/Ver minh′alma adejar pelo infinito, / Qual branca vela n′amplidão dos mares./No seio da mulher há tanto aroma…/Nos seus beijos de fogo h’ tanta vida…/— Árabe errante, vou dormir à tarde/ À sombra fresca da palmeira erguida.

 Oh, Dante! Comecei esta crônica com ares de riso e, de repente, eis-me aqui aos pés do grande poeta morto aos 24 anos, quase a chorar.” Lasciate ogni speranza, voi ch′entrate”. E, mais cedo ou mais tarde, desesperançados, todos estaremos lá, afinal, Shakespeare está sempre a lembrar que “devemos uma morte a Deus”. Mas não há de ser nada, fica o consolo da comemoração que faremos no Dia dos Mortos.

Publicado no jornal A Tarde em 03/10/2023

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