MÁRCIA BATISTA DA FONSECA : POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM A QUESTÃO AMBIENTAL EM DAVOS?

MÁRCIA BATISTA DA FONSECA : POR QUE TANTA PREOCUPAÇÃO COM A QUESTÃO AMBIENTAL EM DAVOS?

Por Márcia Batista da Fonseca, professora associada do Departamento de Economia, Universidade Federal da Paraíba

 

 

“Se as portas da percepção estiverem abertas, tudo parecerá ao homem como é, infinito”, William Blake (1757-1827). Mas, o que é e até que dimensão vai a percepção humana? Entendendo-se que a percepção seria o início do processamento das informações, em que os estímulos capturam a atenção do ser humano e influenciam seu comportamento e ações, até que ponto a percepção é importante na tomada de decisões? É perceptível que neste início do século XXI estamos vivendo grandes variações climáticas, porém não há consenso sobre causas e consequências, nem tão pouco políticas e ações. Afinal o que estamos percebendo com a questão ambiental?

A sustentabilidade foi o principal assunto da reunião em Davos em 2020. Nos documentos do fórum acerca do Risco Global a questão ambiental e sua influência sobre o desenvolvimento econômico foram apresentados a partir de dados sobre eventos climáticos extremos, perda de biodiversidade e esgotamento de ativos ambientais, ações antrópicas que causam desastres ambientais e durante quatro dias, foram discutidos por líderes econômicos mundiais, ativistas e cientistas. Entretanto, pode-se questionar se a crise climática deveriater sido realmente colocada no centro das atenções como fora feito no 50º Fórum Econômico Mundial em Davos, em janeiro de 2020 na Suíça.

Para se ter uma ideia da importância dada a questão ambiental, quinze dias antes do 50º Fórum Econômico em Davos, foi lançado o Relatório de Riscos Globais 2020 do Fórum Econômico Mundial, este documento apontou que US$ 165 bilhões foram os custos dos desastres naturais no mundo em 2018. O documento apontou também que aumento do consumo de energia e de combustíveis fosseis, e a elevada urbanização são as principais razões para a crise do clima. Estima-se que nos próximos vinte anos 1,7 bilhões de pessoas irão para as áreas urbanas no planeta.

A percepção dos riscos econômicos e financeiros relacionados à crise climática já é clara para empresários, investidores e representantes de alguns dos principais organismos da economia global. Os principais fluxos de Investimentos Estrangeiros Diretos estão sendo direcionados a países com apelo a questão ambiental. Observe-se que no relatório divulgado pela Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (Unctad), o Brasil foi o quarto país no mundo a atrair investimentos estrangeiros externos e recebeu US$ 75 bilhões em 2019. O que chama a atenção são as razões disponibilizadas no relatório para tal, ou seja, as privatizações e os projetos relacionados ao meio ambiente. Além disso, agora em janeiro de 2020 em concomitância ao Fórum de Davos, o governo brasileiro anunciou a criação do Conselho da Amazônia e da Força Nacional Ambiental, ambos para promoverem ações de proteção ao meio ambiente e desenvolvimento sustentável, na tentativa de reduzir as repercussões internacionais negativas ao descaso com a política ambiental nacional.

A ciência econômica já desenvolveu formas de valoração dos ativos ambientais, através de trabalhos como o de Robert Constanza et al (1997) conhecemos o valor econômico, por exemplo, dos ecossistemas terrestres. Qual é ainda a dificuldade de se perceber o valor econômico dos ativos ambientais em pleno século XXI? Os ativos ambientais são fornecidos por sistemas naturais através de um fluxo contínuo de bens e serviços à sociedade, por exemplo a “qualidade do ar”. Toda a dificuldade parte do fato de que o valor econômico de um bem ou serviço ambiental não pode ser integralmente revelado por relações de mercado, ou seja, as relações de oferta e demanda. Por exemplo, todos nós demandamos uma elevada qualidade do ar, entretanto, quem é responsável pela oferta desta qualidade?

Sabe-se que toda atividade econômica gera algum tipo de degradação ao meio ambiente. A relação entre produção econômica e meio ambiente é uma relação permeada pela existência de externalidades, e não sendo transacionados pelo mercado, em geral os ativos ambientais, são considerados bens públicos e como tal não possuem preços associados a eles. Há ainda que se considerar que “a qualidade do ar”tem impacto não só sobre o meio ambiente, mas, afeta por exemplo, a saúde da população, as condições de trabalho e o nível de produtividade da economia.

A percepção da importância da valoração dos ativos ambientais em economias, globais e modernas revela o desafio da preservação ambiental que pode gerar oportunidades de inovação tecnológica (supondo-se um processo de transição para uma economia limpa) ou uma grave fonte de prejuízos para diversos setores mais poluidores, caso não haja mudanças. Das Principais lições tiradas de Davos (2020) é preciso perceber que podem existir ganhos econômicos na produção sustentável, as mudanças climáticas devem ser incorporadas ao gerenciamento de risco e ao plano de negócios das empresas, e que caminhamos para uma transformação do modelo econômico exigida pelas mudanças climáticas.

 

*O artigo semanal é resultado de uma parceria entre o Portal WSCOM e o Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Márcia Batista da Fonseca é professora associada do Departamento de Economia na Universidade Federal da Paraíba.