sexta, 06 de março de 2026
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BUGONIA – ARMANDO AVENA

Redação - 06/03/2026 08:48

O ser humano é um animal simbólico e adora dar sentido às coisas. E vale-se  de signos para justificar suas crenças.  Júlio César dizia que os homens creem naquilo que desejam. Mas não é só desejo, a crença se baseia também na inferência e na observação. Por isso, o homem acredita no que vê e no que não vê.

Acreditar apenas no que se vê é simples, direto e objetivo, mas enganoso. Na Antiguidade, Platão alertava para isso com a célebre alegoria da caverna. Os homens estão acorrentados  em frente a uma parede de pedra, de tal modo que não podem virar a cabeça, e atrás deles há uma fogueira e um caminho por onde passam outros homens carregando coisas e animais. Eles só podem ver as sombras projetadas na parede e tomam isso por realidade. Aquilo que veem é o mundo e é sobre isso que estabelecerão narrativas.  Platão mostra que o mundo dos habitantes da caverna seria um mundo explicado por essa experiência limitada.

Como a maioria dos homens tem aversão ao caos, como não podem conviver com a ideia de que o acaso preside todas as coisas, sua mente cria narrativas que explicam aquilo que não entendem ou que preenchem as lacunas entre o que se vê e o que não se vê. A mente humana é uma máquina de produzir sentido. E faz isso mesmo quando não tem dados ou informações que possam resultar em algo razoável.

É assim que se criam as teorias da conspiração: preenchendo as lacunas da falta de informação e de conhecimento com a imaginação.  Elas frequentemente começam com um fato real, uma coincidência, uma informação duvidosa, e a partir desse conjunto incompleto e às vezes inverídico de informações constroem uma narrativa.

Uma crença grega antiga, conhecida como Bugonia, dizia que as abelhas podiam nascer do cadáver de um boi, pois após sua morte, elas inevitavelmente surgiam no corpo apodrecido.  Os antigos não tinham microscópios capazes de revelar os ovos e o ciclo biológico das abelhas. A observação era verdadeira, e como o homem precisava interpretá-la, eles faziam uma inferência radicalmente falsa.

O diretor grego Yorgos Lanthimos, vale-se dessa crença para contar, no filme Bugonia,  a história de um homem que, atormentado com o que acontece em sua vida, e precisando explicar o que se passa à sua volta, cria uma teoria conspiratória, uma narrativa, que lhe dá o objeto com o qual vai lutar contra o seu destino. As teorias da conspiração servem para simplificar um mundo caótico e geralmente escolhem um inimigo identificável, o responsável pelo que está acontecendo. Toda narrativa precisa de um vilão!

E o protagonista da saga tem certeza de que uma espécie alienígena maligna vinda da constelação de Andrômeda está submetendo a espécie humana. Mas Yorgos Lanthimos é um artista, não está à serviço do conhecimento, da política ou do que  quer que seja.  Por isso vai retorcer a história e surpreender o espectador.

 

Publicado no jornal A Tarde em 06/03/2026

 

 

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