sexta, 27 de fevereiro de 2026
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POR SÉRGIO FARIA – A BONECA VIAJANTE

João Paulo - 27/02/2026 05:00

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras

“A magia da infância é acreditar que tudo pode ser outra coisa”

Clarice Lispector

O cenário é um parque público. O choro sincero de uma menina, inconsolável pela perda de sua boneca, desperta a atenção de um homem adulto, desconhecido, que, sensibilizado, decide penetrar no mundo da fantasia para atenuar o sofrimento daquela criança.

A história é real, revelada por Dora Dymant, última companheira do escritor Franz Kafka.

Na fase final de sua vida, Kafka – que morreu em 1924, vítima de tuberculose pulmonar – costumava frequentar o aprazível parque de Steglitz, em Berlim. Ali, o homem que exerceria forte influência na literatura do século XX, considerado um escritor complexo (o termo kafkiano tornou-se sinônimo do enigmático), passava horas contemplando a natureza e observando o comportamento das pessoas.

“O parque Steglitz transpirava vida e Franz Kafka a absorvia, como uma esponja, viajando com os olhos, atraindo energias com a alma, perseguindo sorrisos por entre árvores”

Numa manhã, testemunhou o desespero da pequena Elsi, que havia perdido sua boneca. Kafka entendeu que seria necessário, a qualquer custo, estancar o choro daquela criança. Então inventou uma narrativa surreal: a boneca Brígida não estava perdida – estava apenas viajando pelo mundo.

Apresentou-se como “carteiro de bonecas” e disse ter uma carta com notícias sobre a viagem de Brígida. Justificou o esquecimento e assumiu o compromisso de entregar-lhe o envelope no dia seguinte, no mesmo horário e local.

Caprichou na primeira carta. Percebeu que tinha sobre os ombros a responsabilidade de devolver a alegria àquela criança que, muito provavelmente, experimentava, pela primeira vez, a dor da perda, da separação – talvez da morte.

“A chave de tudo, além da inocência da menina, estava na sua convicção, na sua segurança, na forma como contaria aquele absurdo que acabava de nascer na sua cabeça”.

Embora tenha conseguido um efeito positivo quando, no dia seguinte, entregou e leu para Elsi a primeira carta, logo percebeu que ainda havia um longo caminho a percorrer até que aquela criança pudesse voltar a sorrir plenamente.

Nas três semanas seguintes, mesmo debilitado, encontrou energia para escrever cartas diárias trazendo notícias da boneca mundo afora: Londres, Paris, Viena, Veneza, Moscou, Espanha, Grécia…

Mas toda viagem precisa de um desfecho.

Kafka terminou promovendo o casamento de Brígida com um herói que conheceu em um safari na África. Na última carta, a boneca fez uma bela declaração de amor e gratidão à pequena Elsi e a presenteou com uma nova boneca.

A carta terminava com um pós-escrito em que Kafka presta uma homenagem a sua última companheira:

– “O nome da sua nova boneca é Dora”.

O enredo é, acima de tudo, sobre empatia. Kafka sofre uma metamorfose para, transformado em criança, compreender e navegar pelo universo infantil. Nesse mundo, a regra é viver na ingenuidade e na pureza e não nos limites da vida real.

Uma boneca escreve cartas e viaja pelo planeta. Não há preocupação com dinheiro, nem tempo.  O carteiro entrega mensagens sem endereços e encontra o destinatário num parque público.

Kafka morreria um ano depois, aos 41 anos, em um sanatório próximo a Viena. As cartas originais jamais foram encontradas.

Décadas depois, o escritor espanhol Jordi Sierra i Fabra tomou conhecimento do episódio a partir do artigo La muñeca viajera, de César Aira, publicado no jornal El País em 2004.  Decidiu recriar a história e reinventar as cartas, publicando o livro Kafka e a Boneca Viajante, vencedor do Prêmio Nacional de Literatura Infantil y Juvenil da Espanha, em 2007.

Por alguns dias, um dos maiores escritores do século XX suspendeu o peso do mundo e escreveu cartas imaginárias para que uma menina não sofresse sozinha.

É isso que a literatura faz: inventa viagens para tornar suportável a nossa dor.

 

Imagem de Alexa por Pixabay

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