ADARY OLIVEIRA – MODOS FÁCEIS DE DESESTATIZAR (II)

ADARY OLIVEIRA - MODOS FÁCEIS DE DESESTATIZAR (II)

Relatei no meu último artigo o caso de privatização da Paranapanema localizada em São Paulo, transferindo sua floresta de pinheiro para a PISA, empresa situada em Jaguariaiva, no Paraná. Volto ao tema desestatização com o caso da Salgema, implantada no Estado de Alagoas.

Vivia na Bahia o empresário Euvaldo Luz muito conhecido por ter prestado serviços aos americanos fazendo reparo naval em seus navios durante a Segunda Guerra Mundial, ocupação que continuou praticando em tempo de paz. Ele me contou várias histórias e feitos de sua vida fenomenal. Certo dia, estava com uma equipe fazendo manutenção em um dos navios da Petrobras quando, ao indagar a um dos operários se a empresa havia encontrando petróleo nos poços que perfurava nos vizinhos Estados de Sergipe e Alagoas, foi informado que só achavam água, nada de óleo. Um dos funcionários, ouvindo a conversa, comentou: “[…]na semana passada descobrimos uma mina de sal-gema em Alagoas, parece ter dimensões gigantescas […]”. Euvaldo guardou a informação para si e não titubeou, requereu autorização do Governo para realizar pesquisas. Anos depois, formava com a americana Dupont uma joint venture para explorar o minério.

Seguiu em frente construindo uma unidade industrial, a Salgema, para fabricar cloro e soda, insumos importantíssimos da indústria química. O principal produto fabricado com o cloro é o PVC, dos tubos e conexões. A soda tem inúmeras aplicações industriais. Para se aproveitar o cloro, fabricando dicloroetano, se construiu um etenoduto de 400km de Camaçari até Maceió e posteriormente uma nova fábrica de PVC no Polo Cloroquímico de Alagoas. Para se ter uma ideia da importância do achado, a Companhia Nacional de Álcalis, fabricante de barrilha e localizada em Cabo Frio, no Rio de Janeiro, trazia o sal do Rio Grande do Norte. A matéria prima chegava na fábrica ao preço de US$ 42,00/t. O sal da Salgema custava apenas US$ 4,00/t. Com o passar do tempo o negócio foi crescendo e Euvaldo não teve capital suficiente para acompanhar os novos aportes e a Dupont também perdeu o interesse de continuar como sócia. Quando a Salgema chegou para a carteira que eu gerenciava, a Fibase detinha 49,5% do capital votante e a Petroquisa 49%, totalizando 98,5%.

O apoio das duas estatais, justificada pela importância estratégica de manter a fabricação de cloro-soda em Alagoas, terminou por estatizar a empresa que nascera privada. A condição de ser uma empresa estatal tornava difícil a realização de novas operações de apoio. Certo dia, no Rio de Janeiro, caminhado na Av. Rio Branco com Pedro Paulo Da Poian e Fernando Sandroni, diretores da Nordeste Química S.A. (Norquisa), propus a troca das ações ordinárias da Salgema, de propriedade da Fibase, por ações preferenciais da Norquisa. A Norquisa era uma empresa holding que pertencia às companhias que se abasteciam de matérias-primas básicas produzidas pela Companhia Petroquímica do Nordeste (Copene). Esta tinha como principal função produzir os petroquímicos de primeira geração no Polo Petroquímico de Camaçari e a Norquisa era presidida pelo ex-presidente Ernesto Geisel. A troca seria feita pelo valor patrimonial das ações calculado a partir de balanços auditados e envolveriam outros compromissos como liderar a construção do Polo Cloroquímico de Alagoas e instalar em Camaçari uma central de matérias primas para o desenvolvimento da indústria de química fina.

Os dois diretores levaram o assunto para ser apreciado pela Norquisa e eu o encaminhei para a Fibase, BNDES, Petroquisa e Salgema. A ideia foi de aceitação plena e, então, foi criada uma comissão, com minha participação, representando o BNDES, Da Poian, da Norquisa e Lélio Martins da Costa, da Petroquisa, para elaboração de protocolo detalhando toda a operação. Lembro-me que Rômulo Almeida, membro do Conselho de Administração da Salgema, teria dito que se tratava do maior e melhor acontecimento econômico do Nordeste naquele ano. Em decorrência pude trabalhar no apoio de projetos importantes apresentados pela Norquisa, como o projeto Alfar para Alagoas e o projeto Nitroclor, para a Bahia. Bons tempos, em que era possível realizações em prol do desenvolvimento do Nordeste fugindo das amarras da burocracia estatal.

Adary Oliveira é engenheiro químico e professor (Dr.) – adary347@gmail.com