JOSÉ MACIEL – A TROPICALIZAÇÃO DO TRIGO E A BAHIA

JOSÉ MACIEL - A TROPICALIZAÇÃO DO TRIGO E A BAHIA
Nos anos 1974-1975, cumprindo uma uma jornada de pós-graduação na UFRGS, em Porto Alegre, presenciamos alguns debates nos meios acadêmicos  e da pesquisa agropecuária a respeito das possibilidades de tropicalização da soja, ou seja, da criação de variedades e tecnologias  que  pudessem se adaptar em outros estados brasileiros de clima tropical, já que a soja é cultura originalmente de clima temperado. Pouco depois, algumas variedades foram desenvolvidas e liberadas pela EMBRAPA para estados que recebiam migrantes oriundos do Sul do país e queriam plantar soja e outros grãos, a exemplo de Minas, Goiás, Mato Grosso, Bahia e estados do chamado MATOPIBA. Os primeiros sulistas chegaram à Bahia nos anos 1980.
Com isso, a pesquisa começou a buscar alternativas para a rotação (ou sucessão) com a soja ou para a segunda safra, a chamada safrinha. A partir daí, começaram os estudos e pesquisas em busca de um trigo tropical, para plantio logo após a colheita da soja, a exemplo do ocorre no Paraná e Rio Grande do Sul. Nesse contexto, Minas , os estados do Centro-Oeste, o DF e a Bahia já figuram nas estatísticas da produção de trigo no Brasil, com pequena participação no total nacional.
A agricultura brasileira é autossuficiente na produção de alimentos, fibras  e biocombustíveis,  exceto em poucos casos, como no trigo, na fruticultura de clima temperado, azeitonas e azeite de oliva, e em alguns pescados, a exemplo do salmão e bacalhau. Neste universo, o trigo é o de maior valor importado,  com cerca de 1,5 bilhão de dólares anuais. É oportuno , portanto, reduzir esta dependência, por várias razões que não cabe discutir aqui neste artigo.
Em números redondos, o Brasil produz anualmente algo em torno de 6,2 milhões de toneladas de trigo e importa cerca de 5,8 milhões de toneladas do grão, principalmente da Argentina. O consumo interno é estimado em 11 a 12 milhões de toneladas. Os maiores produtores são o Rio Grande do Sul e o Paraná, com 84%  da produção nacional; Minas e São Paulo detêm uma parcela de 7,6 % ; e o Centro-Oeste e a Bahia participam com cerca de 5,3%.
A Bahia tem uma produção ainda pequena, com uma área de 3 mil hectares (em regime de irrigação), volume produzido de 17 mil toneladas e uma produtividade de 5, 7 toneladas por hectare, a maior do país e duas vezes maior que a média nacional. Toda essa produção se localiza no Oeste do nosso Estado. Alguns analistas acreditam quem em pouco tempo poderemos alcançar uma área cultivada de 20 mil hectares. A produção em regime de sequeiro ainda não é possível, pois a pesquisa terá de buscar (e está buscando) variedades precoces de soja e trigo para aproveitar o regime de chuvas na região, que vai de   outubro a abril.
Acreditamos que o Centro-Oeste brasileiro e a Bahia possam contribuir para reduzir a nossa dependência de importação deste cereal, mas a autossuficiência ainda é, a nosso juízo, uma meta distante. Há também relatos de experiências com trigo no Ceará, em Alagoas e na Chapada Diamantina, , desde 2002.
 A EMBRAPA e a Bahia têm quebrado alguns paradigmas  associados às exigências climáticas de algumas lavouras, como são os casos da uva e do vinho na latitude 9 graus, o excelente café na latitude 13 graus , a fruticultura de clima temperado na Chapada Diamantina, e os plantios experimentais conduzidos pela EMBRAPA e CODEVASF, nos perímetros irrigados no eixo Juazeiro-Petrolina, com lavouras de maçã , pera, caqui, amora e mirtilo, com boas possibilidades de  adaptação. Todas essas culturas são de clima temperado. Nesse sentido , pode a Bahia perfeitamente quebrar mais um paradigma, tornando-se um estado produtor de trigo.
(1) Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP.  E-mail: jose.macielsantos@hotmail.com