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JULIANA PIMENTEL- OVELHAS NEGRAS E SAÚDE MENTAL

Redação - 22/05/2018 07:51

 

Acordar, tomar café, abrir as apostilas, organizar os mapas mentais, assistir às vídeo-aulas, dormir, acordar e repetir. Esse é o dia a dia de muitos jovens brasileiros que decidiram se dedicar exclusivamente aos estudos e se tornar “concurseiros profissionais”. A rotina de quem enxerga o concurso público como a “estrada de tijolos amarelos” realmente se assemelha a uma profissão, que deve cumprir metas e horários rígidos na busca por altos salários e garantias asseguradas pelo Estado. Como se não bastasse enfrentar o vestibular, concluir a faculdade e, no caso dos advogados, passar no exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), milhares de recém-formados se veem novamente diante de uma prova para ingressar no mercado de trabalho.

A vida dos concurseiros não se distancia muito de quem passa anos em cursos de pré-vestibular tentando entrar em uma universidade pública ou ser aprovado num curso de medicina. Na maioria das vezes, o que esses jovens têm em comum não é o desejo de salvar vidas, revolucionar o poder judiciário ou mesmo contribuir para a construção de uma sociedade melhor, mas, simplesmente, garantir a sua sobrevivência diante da selva que se tornou o mercado profissional brasileiro.

Estranho perceber que, em pleno século XXI, ainda somos submetidos a um sistema que molda e oprime os indivíduos para que eles tenham que se encaixar no que seria o modelo de sucesso. E é importante diferenciar tal padronização dos casos em que alcançar o cargo disputado torna-se um sonho pela vontade de contribuir por um bem comum. Pois, quando o sacrifício é consequência da paixão pela profissão, se debruçar sobre os livros é algo prazeroso, e cada informação devorada serve de alimento para alma. Mas o impasse advém quando por trás de belos diplomas e carreiras exemplares estão muitas questões para serem tratadas em sessões de terapia.

 Quantos profissionais incríveis o mundo deixa de conhecer ao limitarmos as possibilidades a serem traçadas? Quantos projetos inovadores, descobertas revolucionárias e obras de arte inéditas a humanidade perde toda vez que esse padrão quadrado dita as profissões que irão te sustentar pelos próximos anos? O mecanismo tange o rebanho em direção ao abismo, mas as ovelhas negras que conseguem se desgarrar saboreiam o descanso na sanidade.

Não é por acaso o aumento significativo de pessoas que se aventuram em anos sabáticos nos últimos tempos. Esse período de 12 meses, em que o indivíduo solicita uma licença do emprego e se dedica a algum projeto particular, se encaixa perfeitamente ao momento em que se atinge a percepção do que seria o “ouro de tolo” descrito por Raul Seixas. E não faz muita diferença saber quais são os planos para esse intervalo. Não importa se é para meditar em templos indianos ou para se especializar em escolas europeias. Decidir por se desligar do trabalho e mergulhar em uma descoberta interior, na maior parte das vezes, é a consequência de escolhas infelizes e da necessidade de manter a saúde mental.

Obviamente que, entre os que optam por pausar a rotina profissional e se dedicar a um projeto de vida, existem aqueles que fizeram escolhas inicialmente felizes, mas, em muitos casos, a decisão de enfrentar novas experiências e sair do labor cotidiano é gerada pela frustração de um dia a dia insosso em profissões escolhidas pela comodidade de um salário. E é em função da coragem das ovelhas negras, que buscam ressignificar suas escolhas e se refazer, que a sociedade tem o prazer de ganhar novos empreendedores, artistas, chefes de cozinha e outras profissões que saem da rota da obviedade para a estrada de terra da vocação, a qual pode ser sinuosa e esburacada, mas que, sem dúvida, nos conduz a caminhos com destino à felicidade.

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