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SOBRE WITTGENSTEIN, LULA E BABY – ARMANDO AVENA

Redação - 23/02/2024 09:14 - Atualizado 23/02/2024

O filósofo Ludwig Wittgenstein faz uma analogia entre a linguagem e o jogo de xadrez. Para ele, uma palavra solta é apenas um signo, assim como uma peça de xadrez é apenas um pedaço da madeira. Uma palavra, uma frase ou um movimento no tabuleiro, só adquirem sentido no âmbito do jogo que está sendo jogado. Não é fácil compreender Wittgenstein, mas pode-se dizer que o significado de uma frase ou dos movimentos no tabuleiro de xadrez obedecem a um contexto específico, a um sentido determinado pela situação. E, assim como há vários jogos de xadrez, há também vários jogos de linguagem. Wittgenstein admite, inclusive, que mesmo as falas desastradas atendem a um contexto específico.

 Acho que ainda preciso aprender muito sobre Wittgenstein, mas lembrei-me dele ao ouvir a peroração de Baby Consuelo no carnaval. Como uma vidente, Baby disse em plena avenida que todos precisam estar atentos “porque nós entramos em apocalipse”. E vaticinou: “o arrebatamento tem tudo para acontecer entre cinco e dez anos”. Ora, ao dizer isso, Baby estava jogando um jogo de linguagem, movimentando as peças do seu xadrez.

A cantora é pastora evangélica, fundou a igreja Ministério do Espírito Santo de Deus em Nome de Jesus e se intitula uma “popstora”: mistura de pastora com estrela pop. Ao falar do apocalipse e do arrebatamento, Baby está falando para seus acólitos, e atraindo fiéis ao anunciar o fim dos tempos e a volta triunfal de Jesus. Mesmo que tivesse sido uma criancice, como ela própria considerou nas suas redes sociais, ou um “recado de Deus” sua fala estava vinculada a um contexto e obedecia a um sentido determinado pela situação.  Talvez, a intenção fosse se contrapor ao carnaval, uma festa profana e dionisíaca, ou algo menos óbvio. Felizmente, Ivete Sangalo, com sua maravilhosa espontaneidade, macetou o apocalipse de Baby e puxou as peças do jogo da linguagem para o seu lado.

Lembrei-me novamente de Wittgenstein quando o Presidente Lula fez um paralelo entre o Holocausto e a guerra em Gaza. Ora, antes da equivocada declaração, Lula fazia o que os humanistas estão fazendo pelo mundo afora: condenava o Hamas como instituição terrorista que praticou um ato de terror matando mil e duzentos judeus, a maioria mulheres e crianças, e fazendo mais de duas dezenas de reféns civis; e, ao mesmo tempo, condenava a reação desproporcional do governo de Benjamin Netanyahu que estava matando milhares de pessoas, a maioria mulheres e crianças, em ataques indiscriminados a Gaza. Mas, então, Lula completa sua fala envolvendo todos os judeus – grande parte deles contrários ao governo de extrema direita de Netanyahu –, e traz ao tabuleiro uma comparação completamente equivocada e injustificável. Foi uma fala desastrada e absurda e o presidente sabe disso, mas ele estava em pleno jogo da linguagem movendo as peças de acordo com um sentido determinado.

Publicado no jornal A Tarde em 23/02/2024

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