sexta, 30 de janeiro de 2026
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O PORTO: ENTRE O CONCRETO E O SONHO

João Paulo - 30/01/2026 05:00

 

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras

“O cais é um mundo inteiro: ali chegam e partem navios, homens, mercadorias, sonhos”

Jorge Amado (Mar Morto)

 

Convivo há quarenta anos com o porto, seja como engenheiro, executivo, professor universitário ou empresário. Conheço-lhe os números, as engrenagens e o peso das estruturas. Entretanto, para muito além dos aspectos técnicos e operacionais, o que mais me prende não é o que se mede, mas o que escapa. Fascina-me constatar o interesse do tema no mundo das artes e, ao mergulhar no universo da literatura, passo a enxergar o porto com o olhar doce de quem partiu muitas vezes sem jamais sair do lugar.

Fonte de inspiração, o porto, na linguagem poética, é o local onde o mar fecunda a terra, assumindo diferentes significados conforme o elemento adotado como referencial.

Para o navio, é morada breve: símbolo de dinamismo, movimento, chegadas e partidas, carga e descarga. Nada lhe pertence; tudo passa. Na síntese precisa do poeta João Cabral de Melo Neto, o porto não contempla: trabalha. É função, fluxo, esforço contínuo, engrenagem que não conhece repouso.

Como elemento estrutural, o porto é feito de pedra, cimento, concreto. É abrigo e proteção. Águas domadas, braços estendidos contra a fúria do mar. Ali, a segurança se opõe ao imprevisto. Fernando Pessoa percebeu esse refúgio íntimo: abrigo da alma, onde, após a tormenta, repousam os sonhos exaustos.

O escritor britânico Joseph Conrad, marinheiro de palavras densas, chamou os portos de veias abertas do mundo. Nelas corre o sangue do comércio, da troca, da sobrevivência coletiva. É economia em movimento.

Vendo-o pela ótica dos atores que compõem a cena portuária, o ensaísta, historiador e ficcionista uruguaio Eduardo Galeano afirmou que, no porto, os homens se reconhecem antes mesmo de saber suas origens; o sotaque vem depois.  Nessa perspectiva, é o ponto de encontro de todas as nações e todos os povos. Representa diversidade, pluralidade, mistura de raças, de cores, culturas distintas: local de trabalho e de suor, de alegrias e tristezas, de encontros e desencontros.

O certo é que, ao navegar pela literatura, percebe-se como o tema é recorrente, permitindo explorar associações fecundas e reflexões essenciais.

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Cada navio que parte é uma etapa da vida que não volta. No cais do porto não há espaço para ilusões: as relações se desfazem – ou sequer se iniciam – não por falta de afeto, mas porque alguém precisa partir. O navio repousa e está seguro, mas sabe que seu destino é partir. Partir sempre, o quanto antes. É a regra da existência.

Passamos a vida atracados, sem perceber que algo em nós já navega para longe. À semelhança dos navios, queremos proteger as pessoas e as coisas que amamos. Mas o mar – esse nome que damos ao destino, ao acaso, à morte – nunca dorme. Um dia, virá soltar as amarras, como a nos lembrar que “navegar é preciso, viver não é preciso”.

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