

O Brasil parece acreditar que uma Copa do Mundo pode ser conquistada comprando o técnico mais caro do planeta. Como se o talento pudesse ser importado, como se garra e vontade pudessem ser compradas por milhões.
A CBF decidiu pagar cerca de R$ 60 milhões por ano a Carlo Ancelotti, R$ 5 milhões por mês. É um valor extraordinário, multiplicado muitas vezes por contratos publicitários, para um país que há décadas vê o futebol de base perder espaço, enquanto faltam investimentos consistentes na formação de jogadores e treinadores.
A CBF é um organismo privado, deveria exigir do seu executivo competência. A CBF é uma instituição bilionária e ninguém sabe como são geridos e fiscalizados os bilhões que ela gasta.
Mas, na verdade, o problema não é Ancelotti. O problema é imaginar que um salário milionário substitui um projeto esportivo.
Nas grandes competições, detalhes decidem títulos. Muitas Copas terminam em disputas por pênaltis. E, ao que parece, Ancelotti sequer treinou pênaltis. Foi um técnico sem criatividade, incapaz de montar um time base. Fez uma seleção que mudava de acordo com os adversários, como se fosse possível ganhar estudando as partidas na internet. Uma seleção que não transmitiu segurança e preparação, deixando a certeza de que ainda falta o trabalho minucioso que separa campeões de derrotados.
Que técnico é esse, que que praticamente manteve a mesma seleção que perdeu a Copa em 2022? Que técnico é esse que fez uma eliminatória pífia, e montou um time pior do que o de 2022, sem garra, sem vontade, sem orgulho de estar defendendo seu país?
Há outro problema ainda mais profundo. Grande parte dos nossos jogadores construiu carreiras extraordinárias na Europa, recebe salários que ultrapassam dezenas de milhões por ano e movimenta contratos de publicidade igualmente milionários. Isso é consequência do sucesso profissional e não deveria ser motivo de crítica. A questão é outra: quando vestem a camisa da seleção, transmitem a mesma fome de vitória que caracterizou gerações anteriores?
As equipes campeãs da história sempre tiveram algo que dinheiro nenhum compra: compromisso coletivo, espírito de sacrifício e orgulho de representar seu país. O talento brasileiro continua existindo. O que parece faltar é aquela disposição de correr o último metro, disputar a última bola e transformar uma partida comum numa batalha.
Enquanto dirigentes acreditarem que basta contratar o treinador mais caro do mundo, enquanto jogadores enxergarem a seleção como um intervalo entre temporadas europeias e campanhas publicitárias, o Brasil continuará distante do hexacampeonato.
Copas do Mundo não são vencidas por cifras. São conquistadas por planejamento de longo prazo, categorias de base fortes, treinamento obsessivo dos fundamentos e, sobretudo, pela vontade inegociável de ganhar.
Foi assim que o Brasil foi penta campeão. E será apenas assim que poderá conquistar o hexa. (EP- 06/06/2026)



