quinta, 12 de fevereiro de 2026
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A APOSTA MÚLTIPLA DE KASSAB, COM DIREITO A ANGELO CORONEL

Redação - 02/02/2026 08:59 - Atualizado 02/02/2026

Gilberto Kassab montou uma engenharia política para a eleição presidencial em 2026 que tenta cobrir todas as apostas possíveis. Está disposto a jogar em todas as “pules”, inclusive naquela que pretende reduzir a polarização entre Lula e Bolsonaro.

Assim, trouxe para o PSD três governadores presidenciáveis, Ratinho Jr. (PR), Ronaldo Caiado (GO) e Eduardo Leite (RS),  e trabalha com a hipótese concreta de lançar candidato próprio à Presidência da República. Ao mesmo tempo, evita qualquer confronto direto com Lula, mantém diálogo institucional com o Planalto e preserva as três indicações do PSD no ministério do governo petista.

Não se trata de incoerência, mas de método. Kassab aposta na fragmentação da direita e crê que o PSD pode ocupar o espaço de uma terceira via na polarização entre o presidente Lula, candidato à reeleição, e Flávio Bolsonaro, candidato do PL. Em seu cálculo político, a divisão da direita, ao contrário do que se costuma dizer, favorece a ida da eleição para o segundo turno. Nesse segundo turno, imagina ele, toda a direita acabaria se reunificando contra Lula.

A estratégia de Kassab é engenhosa, mas parte do pressuposto de que os candidatos da direita concentrarão seus ataques em Lula, subestimando a violência política que tende a marcar a disputa pelo segundo lugar. Para chegar ao segundo turno contra o petista, os candidatos da direita farão de tudo para se sobressair e, nessa disputa natural, terão de se atacar duramente.

A experiência recente mostra que essas guerras eleitorais deixam cicatrizes profundas. Kassab parece ter como referência a disputa pela Prefeitura de São Paulo, marcada por agressões mútuas no campo antipetista, mas cujo resultado final acabou favorecendo a direita. Ou seja, mesmo após um confronto duro entre candidatos do mesmo campo, a unificação no segundo turno foi possível e vitoriosa, o que sugere que a lógica do “bate, mas depois junta” não é, em si, inviável.

O problema é que esse modelo não é automaticamente replicável em uma eleição presidencial. Em São Paulo, o prefeito Ricardo Nunes tinha a máquina da prefeitura na mão; na eleição nacional, a máquina do Executivo está nas mãos de Lula. Além disso, em disputas nacionais, a fragmentação é maior, os egos são mais inflados, as bases regionais são heterogêneas e os ressentimentos tendem a se espalhar pelo país inteiro. O que funcionou em um colégio eleitoral específico pode não funcionar em escala nacional,  sobretudo quando há mais de dois polos competitivos na direita e um candidato forte como Lula do outro lado.

Essa estratégia de Kassab tem riscos evidentes, e Lula pode se beneficiar. Pode vencer no primeiro turno, favorecido pela pulverização e pela autodestruição da direita, ou, mesmo indo ao segundo turno, enfrentar uma direita tão esgarçada que a união se torne frágil, artificial e pouco mobilizadora. Kassab aposta que, no fim, a racionalidade eleitoral prevalecerá. Mas a política brasileira recente tem mostrado que ressentimentos, vaidades e disputas regionais pesam mais do que cálculos estratégicos.

Ainda assim, Kassab joga como poucos no tabuleiro. Ele trabalha contra a polarização formal mas, ao mesmo tempo, não compra a guerra ideológica frontal com Lula e mantém aberta uma porta para o campo petista, inclusive na Bahia com o senador Otto Alencar apoiando Lula. É a política do “nem contra, nem com”, que lhe garante trânsito em dois mundos: o do governo e o da oposição.

Esse movimento nacional teve reflexos diretos na Bahia. O senador Ângelo Coronel, do PSD, levou a Kassab, contra a vontade do presidente estadual Otto Alencar, a hipótese de o partido não apoiar ninguém na eleição estadual, abrindo a possibilidade de um palanque próprio para um eventual candidato presidencial no quarto maior colégio eleitoral do país. Kassab não aceitou a proposta e afirmou que, na Bahia, Otto Alencar é quem dirige os destinos do PSD. E Otto já definiu que apoiará o presidente Lula e o governador Jerônimo Rodrigues.

Com isso, e com a declaração de deputados e prefeitos de que fecharão com Otto Alencar, Ângelo Coronel sai do PSD acompanhado apenas dos filhos deputados e de uns poucos prefeitos. A força orgânica do partido na Bahia está  e permanece com Otto, não com Coronel.

Mesmo assim, a saída de Coronel da aliança petista tem valor simbólico e estratégico. E, ainda que sem grande impacto eleitoral, representa uma cunha na unidade da coligação governista, que precisará responder apresentando um nome para vice na chapa com força política equivalente.

No fim das contas, a “estratégia Kassab” é menos um plano fechado e mais um sistema de apostas simultâneas: lançar nomes, preservar cargos no governo, evitar rupturas definitivas e manter opções abertas até o último momento.

O problema é que, em eleições altamente polarizadas, o excesso de ambiguidade pode custar caro. Mas muita coisa ainda vai rolar nesse cenário. (EP – 02/06/2026)

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