segunda, 25 de maio de 2026
Euro Dólar

A CLASSE MÉDIA E ALTA PASSOU A TOLERAR A CORRUPÇÃO?

Redação - 25/05/2026 08:50 - Atualizado 25/05/2026

No Brasil, dizia-se que, sob o ponto de vista eleitoral,  a classe baixa não se importava com a corrupção entre os políticos e que estava preocupada apenas com as perspectivas de melhorar sua vida. E que os setores mais ricos e escolarizados seriam mais rigorosos com a ética pública. Em poucas palavras: quanto maior a renda e a escolaridade, maior seria a rejeição à corrupção.

As pesquisas mais recentes, porém, parecem desmontar essa narrativa.

O caso envolvendo o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, por exemplo, que, em outros tempos destruiria eleitoralmente o candidato, teve, segundo as pesquisas,  pouco desgaste eleitoral e  o impacto foi bem menor do que muitos imaginavam, sobretudo entre os eleitores de maior renda e maior escolaridade.

Ao que parece, os indícios de corrupção tornaram-se toleráveis para as classes mais escolarizadas e economicamente privilegiadas.

A pesquisa Datafolha, por exemplo,  mostrou que, após o escândalo, Flávio Bolsonaro  caiu de 35% para 31% das intenções de voto no primeiro turno. Ou seja, uma queda de apenas 4%. E, no segundo turno, Lula, que antes do escândalo, havia um empate de 45% a 45%, mudou um pouco , mas nem tanto: 47% a 43%.

O mais revelador, contudo,  é que, entre eleitores com ensino superior e nas faixas de renda mais alta, o recuo foi relativamente pequeno, preservando um núcleo de apoio consistente ao candidato. Ou seja, o eleitorado mais escolarizado, símbolo da intolerância à corrupção,  continua sustentando sua candidatura mesmo diante da associação pública com um banqueiro corrupto.

Ao que parece, as classes médias e altas estão relativizando as denúncias, quando enxergam no candidato alguém capaz de defender seus interesses econômicos, valores culturais ou posições ideológicas.

Durante anos, parte da elite brasileira construiu para si mesma uma imagem de superioridade moral na política. Acreditava-se que o eleitor pobre votava apesar da corrupção, enquanto o eleitor rico votava contra ela. Hoje, as pesquisas indicam algo muito diferente: a tolerância com a corrupção alastrou-se.

A chamada Faria Lima, por exemplo, símbolo do mercado financeiro e do capitalismo brasileiro contemporâneo, sequer se moveu e continua enxergando em Flávio Bolsonaro um representante capaz de promover mudanças econômicas desejadas pelo setor, mesmo diante do desgaste ético provocado pelas denúncias. E o mercado financeiro sequer sabe o que pretende o candidato Flávio Bolsonaro que, por seu histórico, ou pela falta dele,  pode, como aconteceu com Fernando Collor de Melo, arriscar-se numa política econômica totalmente desvinculada dos interesses do mercado financeiro.

As denúncias de corrupção continuam sendo  tema relevante no discurso político e no debate público,  mas agora o eleitor, mesmo os mais esclarecidos,  tolera a corrupção e tende a relativizá-la quando o acusado representa seus interesses, valores ou expectativas econômicas.

A identidade ideológica parece superar o peso das denúncias morais, na política brasileira. O voto deixa de ser um julgamento ético e passa a funcionar como afirmação de pertencimento político e cultural.

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.