sexta, 09 de outubro de 2026
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A BAÍA REINVENTADA NOS LIVROS

João - 09/10/2026 05:00

Segundo uma lenda indígena, no começo do mundo, uma pomba muito grande e muito alva, partindo de algum ponto do infinito, veio voando, até que, exausta da longa jornada, caiu morta no litoral da terra que seria o Brasil. Suas alvas e longas asas, abertas no solo, transformaram-se nas praias da Bahia. E, no lugar onde seu coração bateu contra a terra, abriu-se um imensa e profunda brecha, que as águas do mar preencheram, formando a Baía de Todos os Santos. Suas margens soberbas teriam sido fecundadas pelo sangue da ave legendária, sangue que ainda hoje jorra, já enegrecido pelo tempo, quando as sondas de petróleo perfuram as entranhas do Recôncavo.

A exuberante Baía de Todos os Santos, a Kirimurê dos tupinambás, hoje reconhecida internacionalmente como Capital da Amazônia Azul, para muito além da sua importância econômica e geográfica, tornou-se, também, fonte de inspiração para alguns dos nossos maiores escritores.

A literatura se encarregou de reinventar esse imenso espaço de águas que dá nome ao Estado. A mesma paisagem foi vivida, mitificada, historicizada e poetizada a partir da sensibilidade de cada escritor.

Xavier Marques foi um dos primeiros a ouvir a voz dos homens da Baía. Nascido na Ilha de Itaparica, fez da vida praieira uma das marcas da sua literatura. Em obras como Jana e Joel, O arpoador e Sargento Pedro, descreveu, com grande maestria, os costumes, as crenças, as festas e a religiosidade dos habitantes do Recôncavo Baiano. Em suas páginas, a Baía é o espaço cotidiano de homens que vivem em íntima comunhão com o mar.

Décadas depois, Jorge Amado encontraria esses homens do mar e lhes daria uma dimensão mítica. No romance Mar morto, a Baía de Todos os Santos parece adquirir vontade própria e se projeta como personagem. É o território de Iemanjá, do amor e da morte, das partidas e das chegadas. O mar deixa de ser apenas natureza e passa a governar destinos.

Em Capitães de areia, o escritor baiano que mais projetou sua terra e sua gente constrói o universo dos meninos desassistidos e rejeitados pela sociedade a partir do cais do porto, das praias e das águas da Baía de Todos os Santos.

Se Xavier Marques ouviu o rumor das águas, Jorge Amado ouviu aquilo que havia por trás dele.

Há, porém, uma evidente linha de continuidade entre Xavier Marques, Jorge Amado e um terceiro nome: João Ubaldo Ribeiro.

Assim como Xavier Marques, João Ubaldo também nasceu na Ilha de Itaparica. Voltou os olhos para a mesma paisagem e encontrou nela, sobretudo, a memória de um país. Em Viva o povo brasileiro, Itaparica e o Recôncavo tornam-se uma espécie de pequeno território onde a história brasileira passa a ser contada. A Baía de Todos os Santos é o cenário das lutas pela independência do Brasil na Bahia e testemunha de conflitos, permanências e transformações que atravessam nossa história.

Há, ainda, forte presença desse universo em outras obras de sua autoria, como O sorriso do lagarto e O albatroz azul. Com João Ubaldo, a paisagem se converte em memória; a ilha em país; e a Baía, em testemunha da história.

E eis que surge Myriam Fraga com toda a força de sua poesia.

Em Marques, Amado e Ubaldo a Baía é narrada. Em Myriam, ela é evocada.

Marinhas, seu livro de estréia, projeta o mar como o elemento central de sua poética. Em Sesmarias, a poeta identifica naufrágios, ruínas e mitos, transformando a paisagem marítima em matéria de memória.

E não apenas na poesia. Myriam também explora o mar da Baía de Todos os Santos e o universo da Ilha de Itaparica em Ventos de verão, livro que combina a elegância de sua prosa com a magia da pintura de Mendonça Filho, resgatando, com sensibilidade e impressionante nitidez, a vida e a beleza da paisagem local.

Xavier Marques, a Baía vivida.

Jorge Amado, a Baía mitificada.

João Ubaldo Ribeiro, a Baía historicizada.

Myriam Fraga, a Baía poetizada.

Quatro escritores navegando nas mesmas águas.

As águas das canoas e dos pescadores de Xavier Marques; as águas que levaram Mestre Guma e Lívia pelo mundo de Jorge Amado; as águas que cercaram a Itaparica de João Ubaldo; e as águas que, nos versos de Myriam Fraga, guardam os navios desaparecidos, os mortos, as lendas e o tempo.

Os escritores passam.

Os livros ficam.

E a Baía segue sendo reiventada em cada página, em cada verso, em cada memória.

Nascida de uma história, Kirimurê permanece.

Oxalá as alvas e longas asas dessa ave legendária continuem alimentando nossos sonhos e inspirando a nossa literatura.

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras

 

Imagem de Hermann Traub por Pixabay

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