SAMUELITA SANTANA – A REVOLUÇÃO DO JORNALISMO LENTO

SAMUELITA SANTANA - A REVOLUÇÃO DO JORNALISMO LENTO

Retornando à coluna Visualidades após um breve descanso – período em que inexoráveis reflexões sobre os difíceis tempos em que vivemos ganharam espaço -, me ocorreu essa abordagem sobre a importância do jornalismo em tempos caóticos e pandêmicos, sua sobrevivência, readequação e credibilidade. Um tema nada fácil em épocas de fake news, amadorismo e enxurrada de “influencers” produzindo conteúdos a torto e a direito nas redes sociais. Há os que defendam essa febre de “exibir conteúdos”, manifestar-se, “interpretar” fatos, comunicar conhecimentos e, de quebra, mostrar-se, como uma “nova” forma de fazer jornalismo, com pegada moderninha e antenada com a era digital. Só que não! Jornalismo sempre foi e será um serviço público, não um produto ou uma ferramenta de marketing. Seja nos debates políticos, culturais ou sociais, o jornalismo deve ser o vetor da notícia responsavelmente testada, checada, aprofundada e levada com responsabilidade à população. E, como serviço, sua função social é inquestionavelmente a de manter a sociedade legitimamente informada, com critério, verdade, ética e clareza.

Os pesquisadores, os especialistas em comunicação, mostram que o jornalismo do século XIX apresentava características bem autênticas de serviço, linguagem literária e engajamento com causas sociais e políticas. Tudo muda e a dinâmica do universo é essa mesmo. Mudar para melhor no sentido do aperfeiçoamento e eficiência é o que faz sentido. O resto é retrocesso. A concorrência entre os grandes veículos de comunicação acabou por produzir efeitos – hoje sabemos – devastadores, na forma de produzir e veicular a notícia. O imediatismo, a pressa, o furo, passaram a ser carimbos de competência, além de poderosos filões para profissionais e mídias dispostas a se engalfinharem por prestígio e destaque. A internet, a popularização das redes sociais e os equívocos jurídicos que derrubaram a exigência do diploma, transformando a atividade jornalística nesse caos que é hoje, ampliaram ainda mais o estrago na qualidade e no desvio funcional do exercício da profissão.

Aqui não vamos nem falar das tendenciosidades que norteiam as linhas editoriais das grandes mídias e que aliciam a notícia de acordo com os seus interesses financeiros, político-partidários e visões de mundo. Essa é outra discussão, assim como é outro o debate sobre a sanha da polarização que vai criando uma sociedade em rede colérica e feroz, onde a conversa política tornou-se odiosa, obscena, insultante, a ponto de não permitir ao outro nem mesmo o direito do ser agnosticamente político, ou apartidário, se assim optar. A “doença fascista” acometeu os extremos polares – seja direita ou esquerda – todos empoleirados em suas narrativas tóxicas, julgando e desqualificando não só aos contrários, mas também aos que se recusam a qualquer tipo de posicionamento unilateral. Ser chamado de “isentão” é só o mínimo da depreciação aos que se abstêm das discussões insanas e completamente bizantinas.

Jornalismo sem pressa

E em meio a esse cenário antropofágico, repleto de selvageria, fúria, meias verdades, fake news, pseudos profissionais e notícias descontextualizadas, é que a informação leviana e apressada vai sendo confundida com “jornalismo”, desgastando ainda mais a credibilidade do público em relação às grandes mídias impressas, sites noticiosos e telejornais. Parece um ambiente de terra arrasada! Foi com esse sentimento e reflexões sobre os efeitos da era Covid no jornalismo que comecei minhas incursões pelo chamado Slow News. Um movimento que ganha corpo em diversas partes do mundo e que vem sendo considerado como uma inevitável solução para resgatar o verdadeiro jornalismo, o jornalismo raiz e a sua função de estar mais perto e a serviço da comunidade. A filosofia Slow News aponta uma nova tendência informativa, com notícias mais pensadas, aprofundadas, apoiadas num trabalho de pesquisa, verificação e arco narrativo.

Por identificação com o idioma, venho acompanhando o movimento Slow News criado na Itália, país onde vivi por quase três anos. Acredita-se que as primeiras discussões e publicações sobre o slow journalism ou “jornalismo lento”, tenha surgido no Reino Unido com a revista Delayed Gratification, dirigida por Rob Orchard e Marcus Webb, jornalistas que apreciam a produção de notícias sem pressa, sem correria e que apostam que o jornalismo impresso está longe de morrer. Na Itália, porém, o ponto de partida do Slow News foi o livro escrito pelo americano Peter Laufer, em 2014, um manifesto provocativo que questiona o valor das notícias com “calorias vazias” que acompanham o nosso cotidiano. Inspirado no movimento slow food, ele sugere um ponderado recuo do imediatismo, da enxurrada constante de notícias instantâneas, em troca da informação produzida de forma cuidadosa e completa. O argumento de Laufer reflete sobre a importância do jornalista e do próprio consumidor de notícias reservarem um tempo para ruminar sobre os eventos noticiosos dessa era digital, procurando guiar-se em uma busca gradual por notícias mais lentas, produzidas criteriosamente, sem o aflitivo deadline.

O movimento italiano que vem sendo testado no Portal Slow News é tocado desde 2014, com sucesso, pelos jornalistas Alberto Puliafito, Andrea Spinelli Barrile e Andrea Coccia. Todos fundadores e convictos de que o Slow Journalism é a revolução, o caminho de volta ao jornalismo autêntico, sustentável, sem obsessão por cliques, apoiado no trabalho de investigação, pesquisa, contexto histórico e verificação que é a marca do verdadeiro jornalismo. Utopia? Alberto Puliafito, editor e diretor- geral do Portal, acredita e está decidido a traçar o futuro do jornalismo. “Pode ser uma utopia, eu sei. Mas é isso que você deve almejar para chegar, pelo menos, a algo intermediário”, diz. O que, diante do caos informativo que ganha cada vez mais espaço nas redes sociais, já seria o melhor dos mundos para o jornalismo, restaurado como serviço às pessoas. 

Esse promissor amanhã foi delineado por Puliafito em seu livro  “Slow Journalism – Chi ha ucciso il giornalismo?”  (Jornalismo lento – Quem matou o jornalismo?), escrito em parceria com o jornalista Daniele Nalbone. A filosofia não perpassa apenas pela forma de fazer jornalismo, mas também de mantê-lo, autossustentável, desvinculado da lógica publicitária, oferecendo um arcabouço ético, alicerçado na sustentabilidade, tanto para a produção como para o consumo de mídias e dispositivos digitais, ensaiando um novo modelo de negócio com alavancas alternativas de monetização, a exemplo de eventos ao vivo, doações, opções de adesão e assinaturas. O desafio é o de tornar o jornalismo acessível não apenas para os que podem pagar, mas com acesso livre aos que não podem.

 “O trabalho deve ser pago sempre. Mas ao mesmo tempo o jornalismo deve ser acessível para aqueles que não podem pagar. Nossos acionistas são os leitores que nos financiam, nos leem, nos ajudam e nos aconselham”, explica o manifesto do Slow News italiano onde quem decide quanto vai pagar para ter acesso ao site é o próprio leitor, inclusive nada. O leitor pode acessar peças inteiras, com vários episódios e desdobramentos sem pagar nada por eles. Porque várias outras pessoas já apoiam o projeto.

Os artigos, séries, reportagens, vídeos e podcasts disponibilizados no Portal Slow News não se esgotam numa única peça. As publicações são escritas levando o tempo que for necessário e publicadas quando estiverem prontas, sem pressão. São matérias nascidas de um jornalismo lento, aprofundadas quase como uma pesquisa sociológica, contando histórias verdadeiras, com personagens vivos e ambientados. Sem imediatismos. Não há interesse na polêmica do dia a dia nem nas agendas ditadas pelas redes sociais. A filosofia Slow News se preocupa com as dinâmicas de longo prazo, aquelas que afetam a todos de uma maneira geral. O que, não significa que uma peça com características slow journalism, seja necessariamente longa. O formato, enfim, em absoluto implica numa abordagem lenta. Trata-se de conteúdos que agregam valor às pessoas, serializáveis, que podem avançar em novos relatos e serem lidos hoje ou daqui a um ano.

 Seria a Slow News o nosso “Admrável Mundo Novo do Jornalismo?” O romance de Aldous Huxley é uma distopia fantástica. Os objetivos da filosofia Slow News, porém, almeja propositadamente a utopia. As luzes lançadas pela pandemia da Covid-19 nos inúmeros problemas e mazelas do velho mundo, inclusive no do jornalismo, nos leva a refletir, de fato, sobre como forjar um melhor relacionamento com a mídia digital, como buscar pensamentos e ideias mais profundas sobre a informação, sobre o progresso da tecnologia, sobre a conectada cultura contemporânea e sobre as exaustivas e superficiais interações online. Seria, pois, o momento mais propício para sonhar e refletir como construir esse novo mundo. ” Temos a oportunidade de repensar tudo. Não teremos outra chance.” #ficaaideia