terça, 06 de outubro de 2026
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JOSÉ MACIEL –  AUTOSSUFICIÊNCIA NA PRODUÇÃO DE ALIMENTOS DEVE SER SELETIVA

Redação - 05/10/2026 06:50 - Atualizado 05/10/2026

O leitor de nossa coluna tem ciência que temos preconizado que o Brasil procure buscar a autossuficência  em alguns itens de nossa cesta de alimentos e o foco de curto e médio prazo deve se concentrar sobretudo na produção de trigo, por ser um alimento essencial e superestratégico para a nossa segurança alimentar , e por se defrontar com um cenário de insegurança no suprimento de alguns países exportadores, especialmente no pós-pandemia, e após a eclosão da guerra Rússia- Ucrânia e o conflito no Oriente Médio, que têm contribuído para aumentar os riscos de transportes em rotas logísticas estratégicas, como o Mar Negro e o Estreito de Ormuz. Em alguns casos, o cenário é agravado pela retenção de exportações de fertilizantes para o Brasil e outras nações importadoras.

Por outro lado, queremos deixar claro que essa proposta de autossuficiência aqui defendida não deve ser ampla, geral e irrestrita. Só devemos buscá-la em em itens essenciais e estratégicos, como o trigo, e nos casos em que a  instabilidade e falta de confiança gerada pelos países exportadores possam aumentar nossas vulnerabilidades.

Em muitas situações, como no universo dos pescados, podemos estimular nossa produção interna de tilápia, tambaqui, , peixe panga (temos de reduzir as restrições ambientais parcialmente vigentes) e outras espécies tropicais, e , em casos emergenciais, podemos adotar estratégias de substituição entre espécies de peixes, e  de pescados por outros tipos de carnes, como frango, suínos, caprinos, e ovinos, dentre outras espécies. Portanto, nesse universo e na deficiência de produção de vegetais e verduras, não temos tanta preocupação, como no trigo.

Nenhum país produz todos os alimentos que consome , sendo a Guiana um caso à parte, pois, com o boom do petróleo de sua margem equatorial e a criação de seu Fundo Soberano, como fez a Noruega com as descobertas de petróleo no Mar do Norte, e as  amplas disponibilidades de terras, água e outros recursos naturais, a Guiana é capaz de produzir todos os alimentos de uma cesta de consumo de 7 grupos de alimentos, a saber: frutas, vegetais (verduras e hortaliças), laticínios, peixes e frutos do mar , carnes , alimentos ricos em amido, e proteínas vegetais (leguminosas, nozes, castanhas e sementes).

Ademais, o nosso vizinho aqui da região  Norte está atraindo agropecuaristas brasileiros, especialmente de Roraima, para, com sua expertise e conhecimento tecnológico, ir produzir grãos para rações e carnes lá em seu território. Eles estão dando concessões de terras por 99 anos, principalmente para empresários brasileiros. O petróleo na Guiana já fez a renda percapita desse país subir de 6 para 33  mil dólares, enquanto a nossa empacou nos 12 mil dólares faz tempo. Eles têm a ambição de suprir os alimentos para o seu mercado interno e para vários países do Caribe.

No universo dos 7 grupos de alimentos, a guiana vem em primeiro, o Vietnã e a  China podem ser autossuficientes em  6¨( a única exceção aqui reside no déficit de produção de laticínios), e estão, portanto na segunda posição, e o Brasil ( na terceira posição) é autossuficiente em 5 dos 7 grupos,  apresentando insuficiência de produção interna em vegetais (verduras, legumes e aqui pode ser incluído o trigo) e no grupo de pescados e frutos do mar.

Portanto, do raciocínio até aqui esboçado, é economicamente mais razoável  produzir os itens para os quais temos aptidão de clima e solos, e disponibilidade de terras, água e conhecimento tecnológico.  Esse argumento também se estende aos insumos estratégicos,  A  aplicação desse raciocínio ao Brasil sugere que nossa preocupação no curto e médio prazos deve se concentrar na produção interna e redução de importações (ou autossuficiência) para os casos do trigo e dos fertilizantes. Essas são as  nossas 2 maiores vulnerabilidades.

No caso do trigo, a criação do chamado trigo tropical fragilizou completamente o argumento segundo o qual não temos aptidão  edafoclimática para produzir em nosso território. Agora, podemos produzir no Cerrado , inclusive nos cerrados baianos, com e sem irrigação. Na Bahia, devemos, neste momento, dar preferência à produção irrigada, em regime de rotação-sucessão com soja ou outras lavouras  de verão.

 

(1)Consultor Legislativo e doutor em Economia pela USP. E-mail:  jose.macielsantos@hotmail.com

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