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CHORAR PELA ARGENTINA – ARMANDO AVENA

Redação - 15/12/2023 08:29

Como será a Argentina com Javier Milei na presidência? Vem-me à cabeça de imediato a expressão “já vi esse filme” e ele foi exibido no Cine Brasil.   A eleição de Milei reproduz um fenômeno mundial: a ascensão da extrema direita e esse filme, que já teve como protagonistas Donald Trump e Jair Bolsonaro, não tem final feliz. É uma ópera-bufa trágica, se o leitor me permite o oximoro. Mas ela será encenada na Argentina cuja característica maior é a passionalidade do seu povo – no tango, no amor ao futebol, na paixão nas relações pessoais e políticas –, então tudo pode acontecer.

 Jorge Luis Borges, o maior dos argentinos, dizia que seus conterrâneos são avessos à ideia de estado. “O argentino é um indivíduo, não um cidadão”, diz Borges.  Ao contrário do povo europeu, que tem com o estado uma relação moral, como queria Hegel, os argentinos só acreditam na relação pessoal e como o estado é, ou deveria ser, impessoal não creem nele. O argentino personaliza o estado no indivíduo, que se torna Perón, Eva, Néstor, Cristina e só aí a relação passional se estabelece.

 O argentino adora pôr-se contra o estado. Não gosta do estado porque ele é impessoal, não cria laços. Borges lembra que na literatura e nos filmes americanos, o herói pode até ficar amigo do fora da lei, mas, quase sempre, termina por entregá-lo. Na literatura argentina é diferente, o sargento de polícia que persegue o desertor Martin Fierro passa a admirá-lo e, de repente, começa lutar contra seus próprios soldados em sua defesa, afirmando  que não  pode permitir  que se mate um valente, como no poema de José Hernández. A amizade, a honra, é a paixão maior dos argentinos; o estado é corrupto e a polícia é uma máfia. O brasileiro também pode achar que o estado é corrupto e a polícia é uma máfia, mas seu intento não é exatamente lutar contra eles, mas, sim, capturá-los, fazer com que eles atuem a seu favor.

 Para o argentino, o estado tem de se personificar e quem o representa ou quer representá-lo tem de ter carisma, algo impossível de encontrar em Alberto Fernandez, Macri ou Massa, mas que Milei parece ter. A mediocridade pode ser carismática! Claro, a eleição de Milei foi fruto da rejeição, do cansaço da população com os governos incompetentes e corruptos.  E a polarização política ficou estabelecida entre um medíocre carismático e  um Congresso de oposição.  Javier Milei tenta mostrar moderação, mas, quando o povo for às ruas e o Congresso rejeitar suas propostas, “o Loco” aparecerá por inteiro.  Só uma ampla negociação em prol da reconstrução nacional salvará a Argentina, mas é impossível crer que um homem que conversa com cachorros mortos possa liderar esse processo.  O mais provável é que siga a receita do populismo de extrema direita, radicalizando a polarização e criando o pretexto para uma aventura política ou militar.

Publicado no jornal A Tarde em 15/12/2023

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