CLÁUDIO LOTTENBERG PRESIDENTE DO CONSELHO DELIBERATIVO DO HOSPITAL ALBERT EINSTEIN

CLÁUDIO LOTTENBERG PRESIDENTE DO CONSELHO DELIBERATIVO DO HOSPITAL ALBERT EINSTEIN

O globo : Mandetta: Ministro diz a subordinados que acredita que sua demissão está próxima

Claudio Lottenberg : Vou considerar se for uma convocação de natureza técnica e boa para o Brasil. Se tiver política, eu não sou a pessoa. Seu nome aparece entre os cotados para assumir o cargo do ministro Luiz Henrique Mandetta.

O globo : O presidente Bolsonaro o procurou?

Claudio Lottenberg : Não. Tenho acompanhado pela imprensa essa movimentação e, nos últimos dias, isso tem chegado a mim como reverberação de pessoas ligadas aos setores privado e público. Não recebi nada formal do presidente Bolsonaro.

O globo : Quando fala do setor público o senhor foi contatado por algum auxiliar do presidente?

Claudio Lottenberg : Não. Recebi telefonemas de deputados, de pessoas que assessoram políticos e amigos médicos. Formalmente de alguém que possa estar falando em nome do presidente eu não recebi nenhuma sondagem ou convite.

O globo : Essas conversas com políticos foram de apoio ou para sondar sua disposição em assumir o cargo?

Claudio Lottenberg : As duas coisas. São pessoas que são simpáticas em ter no ministério alguém com um perfil técnico. Embora eu tenha tido funções públicas e atividade política eu não sou um político de carreira. Elas entendem que eu reuniria as condições necessárias para desenhar um plano de saúde para o país. Por isso têm conversado comigo. Eu logicamente, ouvindo isso, tenho me interessado pelo assunto. Não tive nenhum convite e poderia considerar caso ele viesse. Evidentemente que para uma função dessas, às vezes, não é um convite mas uma convocação pela situação que o país atravessa.

O globo : Então estaria disposto a aceitar a missão?

Claudio Lottenberg :  Eu me preparei a vida inteira. Administrei hospitais, conheço planos de saúde, fui secretário municipal de Saúde de São Paulo.

O globo : É que a situação hoje não tem precedentes?

Claudio Lottenberg : Sim, o momento atual é diferente. Há um cenário de pandemia. O fenômeno de isolamento social está sendo muito discutido porque tem um prejuízo na vida econômica e financeira do país. Então é um desafio enorme encontrar uma alternativa que preserve a vida das pessoas mas não paralise a atividade econômica.

O globo : O modelo de isolamento social é hoje o centro das divergências entre o presidente Bolsonaro e o ministro Mandetta. O senhor é a favor do isolamento social horizontal ou vertical?

Claudio Lottenberg : O Brasil tem alguns Brasis. Tem regiões onde teria que ser mais radical o isolamento e outras em que talvez pudesse ter um isolamento mais verticalizado, com maior flexibilidade. Em São Paulo, os hospitais de primeira linha não estão lotados porque nessa população o achatamento já está ocorrendo. Portanto, você já percebe que tem pessoas que poderiam estar voltando ao trabalho. Uma política de testagem em massa, avaliando a capacidade instalada hospitalar, poderia mostrar um mapa (de isolamento) um pouco diferente daquele que temos hoje. Eventualmente nessas regiões flexibilizar o isolamento.

O globo :  Não ficou claro no que sua opinião é diferente do que já prega a atual gestão do ministério. Eles defendem que o isolamento precisa ser discutido regionalmente e de acordo com o avanço da doença em cada local?

Claudio Lottenberg : Eu acredito que a gente pode ter alternativas mantendo um isolamento de forma seletiva. Conversei hoje com um professor de Israel que sugere um isolamento em que as pessoas alternam períodos de isolamento com períodos de trabalho. São quatro dias de trabalho e seis de isolamento. Tenho a impressão que deve existir uma alternativa mais criativa.

O globo : O presidente tem defendido o isolamento vertical, mantendo em quarentena grupos de risco e liberando quem não está na lista de vulneráveis. Você é a favor disso?

Claudio Lottenberg : Acho que existe um caminho por aí porque já existem populações imunizadas. Tem muita gente que foi assintomático, e a maior parte é assim, e são pessoas que já poderiam estar em vida normal. Minha leitura é que temos a oportunidade de ser criativo. Agora o que você irá aplicar para São Paulo não é o que será adequado para Curitiba ou Florianópolis. Agora isso dá trabalho e exige inventário de instalação, mapa epidemiológico, conhecimento de economia de saúde.

O Globo: Organismos internacionais como a OMS recomendam uma flexibilização no isolamento somente após uma testagem em massa da população para saber em que fase estamos da epidemia e se é possível o relaxamento sem colocar em risco a saúde. Isso não tem sido possível no Brasil até o momento por falta de insumos, testes… O que está propondo não é algo ainda inviável nas condições atuais?

Claudio Lottenberg : Acho que o ministério precisa fazer. O papel do ministério é levantar números e ficar apresentando diariamente esses números na televisão? O ministério tem que procurar soluções.

O Globo: Mas o problema passa por logística de compra. O governo teve dificuldades como vários outros países no mundo em adquirir insumos e equipamentos?

Claudio Lottenberg : Concordo. Mas os testes estão chegando. A partir de agora tem que tomar uma atitude diferente. Não se trata de criticar o passado ou uma gestão. Temos que olhar o que pode ser feito a partir de agora. Tem que botar energia total na testagem da população para criar bolsões onde possa ter alternativas para mudar o isolamento.  Agora isso dá trabalho num país com 220 milhões de habitantes em situação socioeconômica muito distinta.

O Globo: O senhor acredita que hoje algumas áreas do país poderiam ter o isolamento social relaxado?

Claudio Lottenberg : Todo mundo quer salvar vidas e quer a economia funcionando. Se partirmos desse princípio vamos encontrar alternativas. Se ficar debatendo isolamento ou não isolamento não vamos chegar lá. Cada secretário de estado tem que ter a sua forma para encarar isso. Eu acredito que há formas mais inteligentes de se fazer o isolamento social.

O Globo: Pode haver muita resistência de governadores se o governo federal decretar regras para o isolamento social. Como equacionaria isso?

Claudio Lottenberg : Acho que o que cabe aos governos é criar um clima de sinergia e entendimento pautado por uma visão técnica e não política. Dificuldades têm que ser superadas por um interesse maior que é o cidadão.

O Globo: Qual sua relação com o presidente Bolsonaro?

Claudio Lottenberg : Sou um cidadão brasileiro e ele é meu presidente.

O Globo: Só isso?

Claudio Lottenberg : Tenho respeito por ele. Ele foi eleito e merece por parte de todos nós respeito pela função que exerce.

O Globo: O senhor conversou com ele durante a pandemia. Do que falaram?

Claudio Lottenberg : Nós conversamos sobre pesquisas da hidroxicloroquina, onde ele mostrou uma atitude educada e jamais impositiva. Acima de tudo curioso, querendo encontrar uma resposta para algo que pudesse trazer segurança para os cidadãos. Não temos que trabalhar para o presidente ou para o governador. Temos que trabalhar pelo bem da saúde dos brasileiros e da economia.

O Globo:  É a favor da prescrição da hidroxicloroquina para qualquer paciente?

Claudio Lottenberg : É uma droga que tem efeitos colaterais e tem que ser usada através de um médico que se responsabilize. Ainda precisamos aguardar os estudos para ver qual o melhor momento para ela ser utilizada. Na opinião de muitos médicos parece haver um efeito positivo contra o coronavírus. Não sou a favor de um uso em massa.

O Globo: O ministério recomenda o uso para pacientes internados e que tenham algum tipo de monitoramento de efeitos colaterais. Concorda?

Claudio Lottenberg :  Acho a orientação correta.

O Globo: O senhor é amigo do governador João Doria, que é desafeto político do presidente Bolsonaro. Isso pode atrapalhar uma escolha pelo seu nome?

Claudio Lottenberg :Acho que o Brasil precisa ter soluções de natureza técnica. Estamos numa situação de muita complexidade onde vidas estão correndo risco e existe a necessidade de uma manutenção da atividade econômica do país. Temos que ter maturidade. Não acredito que pessoas maduras levem em consideração aspectos pessoais quando a gente precisa de competência para resolver problemas. Acredito que elas tenham maturidade para separar esse cenário. Tenho 59 anos de idade. Trabalhei a minha vida inteira. Não preciso pedir para trabalhar em lugar nenhum. Se eu for chamado para ajudar, eu vou considerar se for uma solução de natureza técnica. Não quero entrar nessa disputa. Eu não preciso ser ministro. Vou considerar se for uma convocação de natureza técnica e boa para o Brasil. Se tiver política, eu não sou a pessoa.

Foto: divulgação