PAULO AMILTON : ZARATRUSTA, A PRISÃO EM SEGUNDA INSTÂNCIAE O CORINGA

PAULO AMILTON : ZARATRUSTA, A PRISÃO EM SEGUNDA INSTÂNCIAE O CORINGA

Zoroastro, em grego, ou Zaratrusta, em persa,foi, segundo os estudiosos, o precursor de uma religião monoteísta cujo Deus de adoração era Aúra-Masda. Esta religião, chamada de Zoroastrismo, afirmava que osAúras eram seres que escolheram fazer o bem e seguidores deAúra-Masda.Já os Daivassão os seguidores de Angra Mainyu e representavam os seres que escolheram fazer o mal.

Na sua versão original, o livro sagrado desta religião se chamava Gatas e este tinha uma mensagem dualista, sobretudo no plano ético. Esta determinava que os homens eram livres para escolher entre o bem e o mal. Ou seja, o mundo comportava forças benignas e maléficas e os habitantes deste poderiam escolher entre essas duas vertentes. Como já dito, o bem seria representado pelos seguidores de Aúra-Masda e o mal pelos seguidores deAngra Mainyu. Vale ressaltar que este último não era visto como uma divindade, mas uma energia negativa que luta contra a energia positiva emanada de Aúra-Masda.  Alguns transportavam essas forças para o plano individual, no qual cada um escolhia fazer o bem ou o mal, ou ter uma mentalidade progressista ou uma retrograda.

Pois bem, o que isto tem a ver com a cena política atual no Brasil? Tudo. Além do mais, não é de agora. Primeiro este tipo visão dualista começou a imperar nas universidades federais, e isto já é assim a muito tempo. Existe uma divisão entre aqueles que advogam o pensamento de esquerda e aqueles que, muitas vezes não são de direita, mas não concordam com todas as teses da esquerda. Só por conta disto são considerados revisionista e merecem todo o desprezo do mundo. As pessoas de esquerda se veem como os Aúras atuais, ou seja, como legítimos seguidores deAúra-Masda. Já os ditos revisionistas são os Daivas em sua vertente universitária.

Por que é assim? As pessoas de esquerda acham que porque defendem os excluídos, rejeitados e explorados são, como tal,seres de moral mais elevada. Como preconizado pelo Zoroastrismo, osDaivasque não concordam com algumas maneiras que a esquerda preconiza para ajudar os excluídos, explorados e tal devem ser combatidos. Se possível eliminados do convívio acadêmico. Os novos Aúras se acham plurais, desde que a pluralidade fique dentro dos limites do aceitável por eles. Discordar do líder ideológico nem pensar, e se este chefe se definir como marxista, ave maria. Marx é a versão acadêmica de Aúra-Masda.

Aquele dualismo universitário contaminou o ambiente político, pois a direita, no ambiente universitário, não tinha apenas um autor para seguir, não tinham uma divindade, eram apenas energias negativas, como preconizou Zoroastro. No entanto, com a eleição de Bolsonaro, este Deus agora se apresenta no ambiente político. Neste contexto, seus seguidores estão reivindicando para Bolsonaro o título de Aúra-Masda e o de Aúras para eles. O guru deste grupo é o filósofo Olavo de Carvalho. Por outro lado, asseguram com todas as letras que Lula é nosso Angra Mainyue os petistas seus Daivas.

Vemos, então, a divisão dos eleitores em dois lados. Osdevotos da direita, encarnada no atual presidente, é visto como uma das forças, a esquerda, aquela que encampa o LULALIVRE, a outra força. Quem são os Daivase osAúrasdependem dos óculos de quem vê. O que tem em comum entre os adeptos é uma virulência incrível. Se alguém discordar levemente de uma das divindades, Lula ou Bolsonaro, leva uma saraivada de críticas, podendo até a chegar a embates físicos. A decisão do STF de rever a prisão em segunda instância dará combustível para que este embate se torne fraticida.  O que vejo como pior, amizades serão desperdiçadas. O convívio social se dará entre os que pensam do mesmo jeito. Pensamento único é um passo bem dado à mediocridade intelectual.

Aquela mediocridade causa problema ao tecido econômico? Claro. Segundo Douglas North, uma sociedade próspera tem como característica instituições fortes e estáveis. Sendo instituições as regras que regulam o convívio humano no ambiente social e econômico. Essas instituições são determinadas pelo ambiente político.  Um ambiente político tão dividido entre Daivas e Aúras não gera soluções de consenso e o tecido econômico sofre porque as regras de convívio, instituições, não são vistas como estáveis por aqueles detentores dos recursos para alavancar a atividade econômica.  Sem investimento, não existirá o processo de criação de renda. Sem renda, não existirá demanda agregada. Sem demanda agregada, não existirá emprego. E aí teremos o aprofundamento do ciclo vicioso que já vivemos.

O ambiente político tem que dar espaço para os campos menos radicais. O centro político tem que mostrar a cara, pois, se não, a perdurar esta luta entre Daivas e Aúras, quem sofrerá mais são justamente aqueles que tem menos proteção social. Eles não vão ficar imóveis. Vão reivindicar, como estão fazendo no Chile na Bolívia, e outros. E estas reivindicações podem não ser pacíficas. Depois não reclamem dos Coringas que vocês encontrarem pela rua.