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O OLHAR PEDAGÓGICO NA ERA DA IA: O DESAFIO DE EDUCAR COM INTENCIONALIDADE E MODERAÇÃO

João - 29/05/2025 11:34 - Atualizado 29/05/2026

Vivemos um tempo em que a tecnologia deixou de ser apenas ferramenta e passou a ocupar um espaço central na forma como aprendemos, nos relacionamos e produzimos conhecimento. A inteligência artificial chegou às escolas antes mesmo de muitos educadores compreenderem completamente seus impactos, possibilidades e riscos. Diante disso, o maior desafio da educação talvez não seja impedir o avanço da tecnologia, mas aprender a educar com intencionalidade e moderação em meio a ela.

Na escola, temos vivido esse movimento de maneira muito concreta. Nos últimos anos, ampliamos o uso de plataformas digitais, recursos interativos e experiências tecnológicas dentro da rotina pedagógica. Inicialmente, a percepção era de encantamento: alunos mais engajados, famílias impressionadas com as inovações e professores descobrindo novas possibilidades de personalização da aprendizagem.

Entretanto, com o tempo, começamos a perceber que a inovação sem equilíbrio também produz excessos. As famílias passaram a sinalizar preocupações relacionadas ao aumento do tempo de tela, à quantidade de plataformas utilizadas e à sensação de intensificação da rotina escolar. Algumas crianças demonstravam dificuldade em sustentar momentos de atenção mais longos em atividades concretas, leituras físicas ou experiências menos imediatistas.

Foi nesse momento que entendemos que o debate sobre inteligência artificial e tecnologia na educação não poderia ser apenas técnico. Precisava ser profundamente pedagógico.

Mais do que discutir ferramentas, passamos a discutir intencionalidade:

Por que estamos utilizando determinada tecnologia?

Ela potencializa a aprendizagem ou apenas acelera processos?

O que não pode ser substituído pelo humano?

Como equilibrar inovação e infância?

Percebemos que a mediação do professor tornou-se ainda mais essencial. Em uma aula investigativa de Ciências, por exemplo, observamos que o momento mais rico não aconteceu quando os alunos pesquisaram respostas prontas na internet, mas quando formularam hipóteses, erraram, observaram fenômenos e discutiram suas descobertas coletivamente. A tecnologia ajudou, mas não substituiu a experiência.

Também temos refletido muito sobre autoria e pensamento científico. Em tempos em que a IA produz textos, imagens e respostas em segundos, formar alunos capazes de perguntar, argumentar, selecionar informações e construir repertório torna-se ainda mais importante do que apenas transmitir conteúdo.

Outro aprendizado importante dentro da escola foi compreender que inovação não é sinônimo de excesso tecnológico. Algumas das experiências pedagógicas mais significativas que vivenciamos recentemente nasceram justamente de propostas mão na massa: projetos científicos, investigações sobre a natureza, construção de maquetes, rodas de conversa e documentação das aprendizagens.

A inteligência artificial pode ampliar possibilidades, personalizar percursos e otimizar processos, mas ela não substitui vínculo, escuta, sensibilidade pedagógica e relações humanas. A escola continua sendo, acima de tudo, um espaço de encontro.

Educar na era da IA exige coragem para inovar, mas também maturidade para estabelecer limites. Exige compreender que nem tudo o que é possível tecnologicamente é necessariamente saudável pedagogicamente. E exige, principalmente, manter o olhar atento para aquilo que faz a educação ser verdadeiramente humana: o tempo da infância, as relações, a curiosidade, a investigação, o erro, a convivência e a construção coletiva do conhecimento.

Talvez o maior desafio das escolas contemporâneas não seja ensinar crianças a utilizar inteligência artificial, mas ensiná-las a não perder sua humanidade em meio a ela.

Renata Cordeiro de Souza é coordenadora pedagógica do Colégio Villa Global Education

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