

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Hoje em dia, já não entro em qualquer polêmica. Prefiro ser feliz a ter razão. A experiência ensina que, quando ninguém cede, o conflito se impõe.
Embora seja uma marca evidente do nosso tempo, a intolerância é tema antigo na literatura e nas artes. As grandes obras permanecem porque recusam a pobreza das simplificações e preservam a ambiguidade da vida.
Na Grécia, Sófocles (490–406 a.C.), um dos maiores nomes da tragédia, já encenava esse conflito ao colocar Creonte e Antígona frente a frente, como encarnações de duas verdades absolutizadas: a lei do Estado e a lei moral. O impasse cresce porque ambos são inflexíveis. Não apenas as ideias, mas o modo como são defendidas, pode destruir.
Divergir é natural — e desejável — numa sociedade livre. O problema da polarização começa quando a divergência se converte em inimizade. O outro já não é alguém com quem se debate, mas alguém a ser vencido. O diálogo se dissolve, substituído por identidades cerradas e certezas hostis.
Em pleno século XXI, alguns fatores ajudam a explicar — embora jamais justifiquem — esse fenômeno. No ambiente de incerteza, discursos extremos seduzem. Nas redes sociais, onde o tempo é moeda forte, mensagens emocionais circulam mais depressa que argumentos ponderados. Soma-se a isso o desgaste das instituições, que favorece narrativas radicais e soluções fáceis. Vivemos a superficialidade das análises num mundo que parece saber de tudo e compreender quase nada.
Recentemente, revisitei essas reflexões ao assistir ao filme Dúvida, dirigido por Patrick Shanley. Ambientado em uma escola católica tradicional nos anos 1960, o enredo parte de uma suspeita aparentemente simples, mas logo mergulha em regiões complexas da consciência humana. Ao final, deixa no espectador uma inquietação duradoura.
Ali se confrontam julgamentos sem provas, boatos que destroem reputações e a erosão do freio moral que contém nossos impulsos mais selvagens.
Em um dos diálogos mais marcantes, a diretora da escola, irmã Aloysius, interpretada por Meryl Streep, profere uma confissão perturbadora, capaz de revelar como o apego extremo às próprias convicções pode deformar até mesmo a vocação religiosa: “Posso ter dado passos longe de Deus, mas a Seu serviço.”
O desfecho não oferece respostas fáceis. Entrega ao espectador o peso da incerteza. Sai-se do filme menos seguro e, talvez por isso mesmo, mais humano.
Quem venceu aquela contenda? Houve vencedores?
A polêmica entre Antígona e Creonte permanece eterna. Sempre que convicções se tornam absolutas e incapazes de diálogo, todos perdem. Quando as ideias deixam de ser pontes e se tornam trincheiras, a inteligência empobrece e a convivência adoece.
Imagem de Wolfgang Eckert por Pixabay