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A LAVAGEM DO BONFIM – POR ARMANDO AVENA

Redação - 14/01/2023 09:22 - Atualizado 14/01/2023

Após dois anos sem subir a colina sagrada, a cidade da Bahia vestiu-se de branco e foi a pé dar graças ao Senhor do Bonfim e a Oxalá.

E foi tão belo o espetáculo que volto a  repetir que a  lavagem do Bonfim é uma consagração da Bahia, uma festa única no mundo, pois em canto algum deuses tão diferentes são cultuados em uma mesma cerimônia.

Aqui, na Roma negra do mundo cristão, as religiões se abraçam para louvar ao Senhor, não importa em que forma ele esteja representado. E a festa é única, afinal   em que parte do mundo a religião de matriz africana dá as mãos à tradição católica? Em que parte do mundo uma celebração do candomblé ocorre no adro de um igreja católica? É tão bela e tão ecumênica a Lavagem do Bonfim que deveria ser mostrada ao mundo como a festa do congraçamento religioso e raças e os órgãos de turismo precisam divulga-la pelo mundo afora com esse mote, transformando-a num festival, um evento que dure uma semana inteira, com todo tipo de manifestação artística e religiosa, e seja  mostrada ao mundo como algo tão singular e especial quanto a Festa de São Firmino em Pamplona, a Oktoberfest em Munique ou o Holy Festival na Índia

Há muita discussão em torno da origem da festa e não cabe aqui discutir se a origem é africana ou europeia.  A mitologia negra marca sua origem na África como uma homenagem à Oxalá, a divindade iorubá associada a criação do mundo e da espécie humana. Mas há também quem veja nela uma origem europeia, pois as lavagens já existiam em Portugal antes mesmo da escravidão. Mas a origem não tem nenhuma importância, o que importa é  a tradição e o apelo popular de um festa que se enraizou no imaginário do povo baiano e que se fez presente em todos o momentos da história da Bahia. É tão forte a dupla pertença do povo baiano que ele se uniu contra o cardeal que queria impedir que os católicos participasse dos festejos e também aplaudiu quando o cardeal D. Eugênio Salles  liberou o adro da Igreja ao candomblé para que ali, em verdadeira epifania, fossem louvados Oxalá e o Senhor do Bonfim. 

Todos já sabem a forca do turismo em Salvador e sabe também que, além do mar e das beleza histórica, ele está  fundado na nossa identidade que é o que nos diferencia.  A Bahia é uma nação e sua identidade está dada pela comida, pela história, pela música, pela religião, pelo patrimônio, pelo jeito de ser e de falar e pelas festas que são as manifestações populares do que somos. E se o carnaval é o clímax da nossa alegria, a festa do Bonfim é o apogeu da nossa baianidade. Ninguém será inteiramente baiano se não tiver sua iniciação na colina sagrada, vendo as baianas lavar as escadarias da igreja e molhando-se na água cheiro. Assim a festa do Bonfim deveria transformar-se num festival religioso e profano e o Senhor do Bonfim e Oxalá se dariam as mãos e abririam os braços para receber os turistas que viram ver uma festa maravilhosa de congraçamento religioso.

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