sexta, 06 de fevereiro de 2026
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ERA O CARNAVAL II – ARMANDO AVENA

Redação - 06/02/2026 07:13

A barraca de Juvená era um espaço diferenciado e mais calmo, naquilo que eles chamavam de “ecologia” do Carnaval de Salvador. Era um espaço aberto, mas recuado em relação à movimentação intensa dos blocos e afoxés e, além disso, uma inflexão na Avenida, um local onde os trios desaceleravam, antes de seguir mais rápido pela Rua Carlos Gomes.

Dava para passar o dia inteiro ali, até porque era quase um bar-família – e Juvená estava lá com a sua, agindo como uma espécie de prefeito da folia, pelo menos naquele espaço que ele controlava com maestria – e era muitas vezes usado como um “pit stop”, uma parada estratégica para reabastecer o ânimo com uma cerveja gelada, jogar um pouco de conversa fora e, depois, descer para a Praça Castro Alves.

Ontem mesmo eles fizeram isso, antes de ir assistir ao desfile de travestis nas escadarias do Palácio dos Esportes e, aliás, esse era um capítulo à parte no Carnaval de Salvador.  Ali realizava-se, todos os anos, um concurso de fantasias, uma celebração espontânea que acontecia geralmente na madrugada da segunda-feira de Carnaval. Era quando a escadaria transformava-se em passarela para um desfile de plumas, paetês e lantejoulas em figurinos originalíssimos, alguns de glamour hollywoodiano, outros apenas de completa irreverência, com direito a divertidíssimas performances individuais que levavam ao delírio a todos que amavam o carnaval.

Mas nesta terça-feira a ideia era se reagrupar na Barraca de Juvená e só sair dali para ver o Ilê passar. E o Ilê Aiyê passou muito tarde, mas eles, de longe, acompanharam extasiados a beleza do desfile, um ritual, que trazia lentamente para avenida a afirmação da estética e da cultura negra, ao som da batida afro e dos cantos em coro.

E era lindo ver as estampas e os turbantes,  o vermelho e o dourado, tomando a avenida e a Deusa do Ébano, símbolo da beleza negra, pura elegância e majestade, dançando lentamente ao som do ijexá. Só então, depois que o Ilê passou, foram para a praça, cantarolando Caetano: “Ilê Aiyê, como você é bonito de se ver”.

A madrugada ainda dominava o sol quando o Trio Elétrico de Dodô e Osmar desceu para a Praça Castro Alves e encontrou-se de frente com o trio dos Novos Baianos, que vinha em direção contrária. E logo mais um trio despontou no alto da Ladeira da Montanha e outro já estava em frente ao Cine Guarany afinando a guitarra baiana. Então, os acordes enlouqueceram a multidão, que ouvia Gil dizer que tiete era uma espécie de admirador e a Cor do Som lembrar que o corpo dela reluz no azul de Jezebel.

De repente, o trio do Papa Léguas tocou a Ave Maria de Gounod e silenciou a praça. Mas foi apenas por um instante, pois logo a voz de Moraes Moreira chamou lentamente os foliões: “Olhos negros cruéis tentadores das multidões sem cantor”. E a multidão começou a balançar o chão da praça.

 

Publicado no jornal A Tarde em 06/02/2026

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