

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Há livros que se leem; outros, que se escutam. O ouvidor do Brasil: 99 vezes Tom Jobim pertence a esta segunda categoria. Ao abrir suas páginas, é possível ouvir o piano de Tom Jobim atravessando o papel, enquanto a prosa afiada de Ruy Castro acompanha o leitor como um bom arranjo musical.
Com este livro, Ruy Castro, jornalista, escritor e membro da Academia Brasileira de Letras, sagrou-se o grande vencedor da 67ª edição do Prêmio Jabuti (2025), conquistando os prêmios na categoria Crônica e o troféu Livro do Ano. São 99 crônicas – e a ausência da centésima soa quase como provocação – que percorrem os muitos territórios de Tom Jobim: dados e curiosidades biográficas,o amor pela natureza, as mulheres que marcaram sua obra, a devoção ao Brasil e ao Rio de Janeiro, as parcerias, as amizades, a lealdade, a coerência e a repercussão planetária de uma música que, sem pedir licença, tornou-se universal.
Ruy Castro escreveu que “sempre que Tom Jobim abria o piano, o mundo melhorava”, mas não seria exagero dizer que a literatura de qualidade por ele produzida – de que são exemplos, dentre outros livros, as biografias de Nelson Rodrigues, Garrincha e Carmen Miranda – também muito contribui para melhorar a nossa passagem por esse mundo de meu Deus.
Com texto límpido, informação abundante, humor fino e imaginação narrativa, o livro dispensa linearidade. Não há uma sequência rígida e o leitor, a exemplo do que fiz, pode se dar ao luxo de escolher aleatoriamente a ordem de leitura das crônicas.
Sem entregar surpresas – que nenhuma síntese substitui a experiência direta da leitura – algumas passagens insistem em ressoar na minha mente. Em Falsas boas histórias, o Ruy cronista, seduzido pela boa prosa, acaba por se render ao Ruy jornalista, prisioneiro voluntário da verdade factual. Já Arqueologia das boates é uma pequena joia da memória da boemia carioca, dessas que iluminam um tempo inteiro com poucas páginas. Em outro momento, Ruy Castro revela a obsessão de Tom Jobim por palavras em língua portuguesa iniciadas com “al” (alarido, alaúde, álcool, alazão etc.), que, segundo ele, denotavam a influência árabe na Península Ibérica.
Revelando que, antes mesmo de completar 29 anos, Tom Jobim já havia composto obras primas como Teresa da Praia e Se todos fossem iguais a você, o autor seleciona uma constelação de artistas igualmente precoces – Carlos Drummond de Andrade, Ferreira Gullar, Jorge Amado, Rachel de Queiroz, Castro Alves, Álvares de Azevedo, Lima Barreto, Millôr Fernandes, Glauber Rocha, José de Alencar – e, saudosista, arremata: “Era outro país e eram outros tempos. No Brasil do século XXI, sei de muito marmanjo que, aos 39 anos, continua morando com a mãe e, enquanto não sair de casa, não escreverá seu Grande sertão: veredas”.
No mesmo embalo, a crônica dedicada a epitáfios de gente brilhante guarda um dos momentos mais enigmáticos do livro. Ao destacar as últimas palavras que Tom Jobim escolheu para ser lembrado – “Tu foste a única culpada” – deixa ao leitor o desafio de decifrar o destinatário da frase: Lígia? Luiza? Gabriela? Teresa?
A conquista da mais importante premiação da literatura brasileira reafirma a força da crônica, gênero tantas vezes injustamente tratado como menor, e, a um só tempo, faz justiça ao reconhecer e homenagear dois dos maiores artífices da cultura brasileira. Um, transformou silêncio em música; o outro fez da memória um lugar habitável.
(Foto: Ana Lontra Jobim)