A sessão mal começou e um espírito se materializou. Era Diógenes Rebouças, o grande arquiteto baiano, e queria ver Salvador. Desmaterializou-se e seu ectoplasma lançou-se pela janela, para sobrevoar a cidade. Passou pela ponta de Humaitá e seguiu em direção ao Elevador Lacerda. Surpreendeu-se ao ver que os horríveis barracões do porto, construídos no século passado, ainda estavam lá escondendo a vista da Baía de Todos os Santos. Havia um barracão recém incendiado e pensou que por ali poderia começar a demolição dos demais. Era improvável, recentemente derrubaram um barracão e, pasmem, construíram outro, o Terminal de Passageiros, tão pesado e grosseiro que continua escondendo o mar com seu gigantismo.
Aborrecido, seguiu em frente, subiu a magnífica Av. Contorno e passou pela Av. Centenário, ambas projetadas por ele, dirigindo-se à Barra para seguir até Piatã e refrescar-se com a brisa da cidade da Bahia. Depois mudou de rumo, entrou na Av. Orlando Gomes e gostou de vê-la duplicada, mas indignou-se ao perceber que, inexplicavelmente, construíram em uma avenida plana inúteis e pesados elevados a pretexto de criar retornos na pista. Depois, seguiu em direção ao Centro Administrativo da Bahia, o belo projeto de Lúcio Costa, para ver os edifícios sinuosos e cercados de verde, obra do arquiteto João Filgueiras Lima.
Então se deparou com enormes monstros antediluvianos plantados no que antes era o canteiro central da Av. Paralela. Descobriu então que os monstros feitos de concreto e dotados de um gigantismo obtuso, eram as estações do metrô de Salvador. Informaram-lhe que o metrô era um projeto importante de mobilidade urbana e estava beneficiando a população pobre e milhares de baianos. “Que bom”, disse ele, “mas precisava ser tão feio? E lembrou que essa arquitetura grosseira e agreste não combinava com as linhas suaves e arredondadas da cidade da Bahia.
Abespinhado, seguiu em frente para ver as belas avenidas de vale, projeto de Mário Leal Ferreira. E qual não foi seu espanto ao ver que os vales desapareceram e em seu lugar estavam imensos e grosseiros viadutos, já engarrafados, surgindo de repente como facas grotescas de concreto a cortar a paisagem. Informaram-lhe que era o BRT, projeto de mobilidade urbana que iria beneficiar a população pobre e melhorar a vida de milhares de baianos. “Que bom”, disse ele, “mas viadutos são coisas do passado e estão sendo derrubados em toda parte. Por que o transporte público precisa ser feito em cima de toneladas de concreto que ferem a beleza da cidade?” Quase colérico, perguntou: “Isso é obra dos arquitetos ou dos políticos?”.
Cansado, Diógenes Rebouças resolveu desmaterializar-se. Esvanesceu-se e voltou ao empíreo para contar a Antônio Lacerda e Mário Leal Ferreira, o que estavam fazendo com a cidade da Bahia.
Publicado no jornal A Tarde em 29/04/2022