segunda, 21 de setembro de 2026
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LULA OU BOLSONARO? JERÔNIMO OU ACM? EM ELEIÇÃO POLARIZADA, PESQUISA NÃO VALE QUASE NADA. VEJA OS FUROS

Redação - 21/09/2026 08:52 - Atualizado 21/09/2026

Em uma eleição polarizada, como a que se desenha no Brasil e na Bahia, a pesquisa eleitoral perde importância e pode se transformar apenas em manchete, para beneficiar um ou outro candidato.

Lula ou Bolsonaro? Jerônimo ou ACM Neto? Quando a disputa se concentra em dois polos e os candidatos aparecem próximos nas pesquisas, o número divulgado parece muito mais preciso do que realmente é. Uma pesquisa pode registrar 47% para um candidato e 45% para outro, mas isso não significa que exista, necessariamente, uma diferença real de dois pontos entre eles.

E aí está o primeiro furo: a margem de erro.

Se uma pesquisa tem margem de erro de dois pontos, o  intervalo de incerteza pode estar na própria margem de erro, na própria pesquisa. E, a depender do interesse de quem contratou a pesquisa, os resultados podem ser manipulados, estatisticamente, dentro dessa margem de erro.

O segundo furo é mais simples ainda: quem foi ouvido?

Nenhuma pesquisa entrevista todos os eleitores. É preciso escolher uma amostra que procure reproduzir as características do eleitorado. E o eleitor fica sem saber qual eleitorado está sendo representado na pesquisa. A legislação eleitoral exige que sejam informados plano amostral e ponderações utilizadas segundo características como gênero, idade, escolaridade, nível econômico e área de realização da pesquisa. E isso é a  parte central do resultado. Se uma pesquisa focar mais em determinado eleitorado –  Lula no Nordeste ou Flávio no Sul; ACM nas grandes cidades ou Jerônimo nas pequenas – vai obter resultados que vão beneficiar mais um candidato do que outro. Ou seja: antes de discutir quem está com 48% ou 46%, é preciso perguntar como esses números foram construídos.

 E há um terceiro furo: margem de erro não mede todos os erros.

A margem de erro é frequentemente entendida pelo público como se fosse uma espécie de margem de segurança para todos os possíveis erros de uma pesquisa. Não é. Ela trata essencialmente da incerteza amostral. Existem outras fontes de erro: quem foi alcançado pela pesquisa, quem não respondeu, como as perguntas foram formuladas, como os dados foram ponderados e como o eleitor efetivamente responde à entrevista.

O quarto furo: o eleitor que não responde

Existe ainda o eleitor que não está na pesquisa porque não respondeu. Isso parece uma questão banal, mas não necessariamente é. Se determinados grupos têm maior probabilidade de atender ao entrevistador, responder ao telefone ou aceitar participar de uma pesquisa, enquanto outros grupos recusam mais frequentemente, a composição das entrevistas realizadas pode se afastar da composição do eleitorado. As ponderações procuram corrigir isso, mas não existe uma garantia matemática de que todo comportamento de não resposta tenha sido perfeitamente compensado. É uma das razões pelas quais duas pesquisas realizadas praticamente na mesma época podem apresentar resultados diferentes.

E, por fim, o último furo: o momento da fotografia

Pesquisa eleitoral é fotografia, não filme. A coleta pode durar vários dias. Durante esse período, fatos políticos acontecem, declarações são dadas, candidatos aparecem na televisão, vídeos circulam nas redes sociais e o eleitor pode mudar de opinião. Uma pesquisa divulgada hoje pode refletir predominantemente o comportamento de alguns dias atrás. Por isso, comparar pesquisas como se todas tivessem sido feitas exatamente no mesmo momento também produz distorções.

E há ainda outras questões. Se a pesquisa for telefônica, presencial ou internet, cada uma vai dar um resultado diferente. E há ainda o modo de entrevistar. Uma pessoa abordada pessoalmente pode responder de maneira diferente de alguém que recebe uma ligação telefônica. Uma pesquisa realizada por outro método pode alcançar perfis diferentes de eleitores. Ou seja: o método de coleta faz parte do resultado.

Finamente é preciso saber que em uma eleição polarizada, a diferença entre 46% e 48% pode ganhar uma importância política enorme, mas estatisticamente ela pode ser insuficiente para afirmar que existe uma vantagem real daquele tamanho. O problema é que a política transforma rapidamente uma pequena diferença estatística em narrativa: “está na frente”, “virou”, “abriu vantagem”, “encostou”. E a estatística rejeita a dramaticidade.  Quanto mais próximos estão os candidatos, maior é a necessidade de olhar para intervalos, tendências e conjunto de pesquisas, e não para uma pesquisa isolada. E isso sem falar da fiscalização. Quem garante que os questionários foram feitos de acordo com as regras do TSE?

Por isso, se a eleição estiver fortemente polarizada, como a da Bahia e do Brasil, o eleitor não deve acreditar muito em pesquisa. (EP- 21/09/2026)

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