

Há uma curiosa contradição na eleição para o governo da Bahia. Os dois principais candidatos, Jerônimo Rodrigues e ACM Neto, precisam desesperadamente de Lula para vencer. O governador precisa transformar o grande apoio que Lula tem junto ao eleitorado baiano em votos para si. Já ACM Neto precisa dos lulistas que, apesar de votarem no presidente, estão dispostos a votar nele para governador.
É o chamado voto “LuNeto”, uma combinação eleitoral que pode ser decisiva. Segundo levantamento da AtlasIntel, cerca de 26% dos eleitores que pretendem votar em Lula também declaram voto em Neto. É uma parcela expressiva do eleitorado. Sem ela, a candidatura de Neto teria enorme dificuldade para enfrentar a força do lulismo na Bahia.
O fenômeno revela a estratégia delicada de ACM Neto. Ele precisa convencer o eleitor de Lula de que é possível votar em Lula para a Presidência e nele para o governo. Ao mesmo tempo, não pode se afastar demais de seu eleitorado tradicional, que rejeita Lula e o PT. Sua campanha, portanto, precisa construir uma ponte entre dois eleitorados que, em princípio, parecem incompatíveis.
Jerônimo vive o problema inverso. Lula está ao seu lado, mas uma parcela dos eleitores do presidente ainda não está convencida de que deve votar no governador. A campanha petista sabe disso e vem tentando desconstruir o voto Lula-Neto, insistindo na ideia de que quem vota em Lula deveria votar também em Jerônimo.
Os números mostram por que essa disputa é tão importante. A pesquisa Genial/Quaest de agosto apontou 39% para ACM Neto e 37% para Jerônimo. A pesquisa AtlasIntel/A Tarde coloca ACM Neto 48,8% x Jerônimo 47,5%, enquanto a RealTime Big Data indica Jerônimo 45% x ACM Neto 44%. Portanto, temos empate técnico em todos os cenários.
Ao mesmo tempo, a aprovação do governo Jerônimo é superior à sua intenção de voto. Isso significa que existe um eleitorado que reconhece o governo, mas ainda não transformou essa avaliação em decisão eleitoral.
O mapa da Bahia ajuda a explicar o problema. ACM Neto mantém forte vantagem em Salvador e Região Metropolitana e em algumas grandes cidades, enquanto Jerônimo apresenta desempenho muito melhor no interior. Na pesquisa AtlasIntel, Neto chegava a 55,9% em Salvador e Região Metropolitana, contra 38% de Jerônimo. Já em Feira de Santana, Jerônimo aparecia com 61,3%, contra 37,1% de Neto. No Oeste e Sudoeste, também havia vantagem para o governador.
Há aí uma pista importante para a campanha de Jerônimo. Seu desafio não é simplesmente conquistar o interior, onde já demonstra força. É levar para as grandes cidades a aprovação que consegue obter em importantes municípios do interior. Feira de Santana é um exemplo eloquente: mesmo sendo uma cidade politicamente próxima de ACM Neto, Jerônimo aparece com vantagem.
A eleição baiana poderá, portanto, ser decidida menos pela capacidade de cada candidato de conquistar seus eleitores tradicionais e mais pela disputa pelo eleitor de Lula. Ou seja: ACM Neto precisa preservar o LuNeto. Jerônimo precisa acabar com ele.
É essa a ironia da eleição: Lula, mesmo sem ser candidato ao governo da Bahia, pode ser o personagem mais importante da disputa. Para Neto, quanto mais lulistas puderem votar nele, melhor. Para Jerônimo, quanto mais lulistas entenderem que não há razão para separar os dois votos, maior será sua possibilidade de reeleição.
No fim, a pergunta decisiva poderá não ser quem tem mais votos, mas quem consegue convencer melhor o eleitor de Lula a colocar seu nome na urna para governador. (EP – 14/09/2026)
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