segunda, 07 de setembro de 2026
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O SUPREMO PRECISA SAIR DA POLÍTICA E DA MÍDIA

Redação - 07/09/2026 08:59 - Atualizado 07/09/2026

A polarização política brasileira produziu uma consequência que pode ser tão perigosa quanto a própria polarização: a politização do Supremo Tribunal Federal.

É preciso reconhecer, antes de tudo, o papel histórico que a Corte desempenhou na defesa da democracia. Diante da tentativa de ruptura institucional de 8 de janeiro e das articulações que a antecederam, o Supremo foi fundamental para impedir o avanço do golpe. A investigação, a responsabilização pelos crimes cometidos e a prisão dos principais líderes da trama foram medidas necessárias para preservar o Estado democrático de Direito.

Mas uma instituição pode acertar no essencial e, ao mesmo tempo, ultrapassar limites.

A excepcionalidade daquele período acabou ampliando o poder do Supremo. E, quando a crise política diminuiu, parte desse protagonismo permaneceu. O resultado foi uma Corte cada vez mais presente na política, na imprensa e no debate público e em denúncias de tráfico de influência e corrupção.

Hoje, a sociedade passou a enxergar ministros como integrantes de campos políticos opostos. Há ministros identificados como próximos do lulismo e outros vistos como mais próximos do bolsonarismo. Não importa, nesse caso, se essas classificações são sempre justas. O simples fato de elas terem adquirido força revela um problema institucional.

Supremo não deveria ter lado político.

Em democracias maduras, cortes constitucionais também exercem enorme poder, mas seus integrantes procuram preservar uma distância maior da disputa cotidiana pelo poder. No Brasil, ministros concedem entrevistas frequentes, fazem declarações sobre temas políticos e participam intensamente do debate público. As sessões do Supremo são transmitidas pela televisão como se fossem partidas de futebol, com torcidas, comentaristas e julgamentos acompanhados em tempo real.

A transparência é necessária. A espetacularização do Judiciário, não.

Quanto mais o ministro fala fora dos autos, mais sua imagem pessoal se mistura com a instituição. Quanto mais o julgamento vira espetáculo, maior é a tentação de interpretar cada decisão como uma vitória de um grupo político sobre outro.

Isso é particularmente grave porque o Supremo passou a decidir questões que interferem diretamente na disputa política e eleitoral. Em alguns momentos, ficou evidente também o posicionamento individual de ministros diante de personagens e acontecimentos políticos. O problema não é o ministro ter opinião. Todo ser humano tem. O problema é permitir que a opinião pessoal seja percebida como parte da atuação institucional.

É preciso também enfrentar outro ponto delicado: as denúncias e suspeitas envolvendo integrantes do Judiciário. Se houver ministros efetivamente envolvidos em corrupção ou em condutas incompatíveis com o cargo, não podem permanecer protegidos pela própria posição que ocupam. Devem ser investigados, julgados e, quando for o caso, afastados ou aposentados na forma da lei.

Não se trata de enfraquecer o Supremo. É exatamente o contrário. Uma Corte constitucional só é forte quando a sociedade confia na sua imparcialidade.

Por isso, o Brasil precisa de um código de ética e conduta mais rigoroso para os ministros do Supremo. É preciso estabelecer limites claros para entrevistas, manifestações públicas, participação em eventos e exposição política. O ministro deve ser conhecido principalmente pelos seus votos, não por suas declarações.

Mas há uma reforma ainda mais importante: a forma de composição da Corte.

A Constituição permite que o presidente da República indique ministros para o Supremo, sujeitos à aprovação do Senado. O modelo, criado em outro contexto institucional, acabou transformando cada indicação em uma disputa política. O presidente escolhe e o Senado aprova. E, como o ministro pode permanecer décadas no cargo, uma escolha presidencial pode produzir efeitos políticos por muito tempo.

Isso precisa mudar.

O Congresso deveria discutir uma nova fórmula que combine idade mínima mais elevada, reconhecida experiência jurídica, critérios objetivos de mérito e, sobretudo, mandato para os ministros. A existência de mandato reduziria a importância de cada indicação presidencial e diminuiria a possibilidade de que o presidente de plantão escolha alguém por proximidade pessoal ou afinidade política.

É justamente a forma de escolha que, em boa medida, politiza o Supremo.

O Brasil precisa de um Supremo independente do governo, independente da oposição e independente da mídia.

A Corte deve continuar sendo firme quando a democracia estiver ameaçada. Deve continuar julgando crimes e punindo quem tentar destruir as instituições. Mas, passada a emergência, precisa voltar ao seu lugar constitucional: interpretar a Constituição, garantir direitos e resolver conflitos jurídicos.

Não cabe ao Supremo governar. Não cabe ao Supremo fazer oposição. Não cabe ao Supremo disputar audiência com políticos ou celebridades.

A democracia brasileira precisa de um Supremo forte. Mas, para ser forte, ele precisa ser menos político, menos midiático e mais institucional.

O Supremo não precisa falar mais. Precisa julgar melhor. (EP -07/07/2026)

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