segunda, 07 de setembro de 2026
Euro Dólar

CELSO CUNHA NETO: PARALELA, A AVENIDA QUE PODE VIRAR GALERIA

Redação - 07/09/2026 04:58

Há avenidas que são endereço e avenidas que são passagem. A Paralela, a mais importante de Salvador, pertence obstinadamente à segunda espécie: atravessa a cidade de ponta a ponta sem pertencer a nenhuma parte dela. É um corredor que se recusa a ser lugar e essa recusa, que a engenharia não vê e o trânsito esconde, é talvez a sua verdade mais profunda. O que a crítica de arquitetura pode acrescentar ao debate da mobilidade não é outra solução de tráfego, mas uma pergunta de paisagem: o que é uma via que ninguém deseja habitar?

A Paralela é o retrato exato dessa condição. Não há ali calçada generosa, praça, esquina de encontro, comércio de bairro. Há apenas velocidade evelocidade, como se sabe, é o contrário da permanência. O motorista que a atravessa duas vezes por dia, todos os dias, conhece cada retorno, cada acesso, cada gargalo; mas não conhece a avenida. Conhece o percurso, não o lugar. E uma cidade feita de percursos, sem lugares, é uma cidade que se atravessa sem se viver.

Há, ainda, uma dimensão visual que o crítico de arte não pode ignorar. A Paralela mostra à cidade as suas costas: muros de contenção, grades, o dorso de edifícios que lhe viram as costas, terrenos vagos que esperam sem promessa. Nenhuma fachada a cumprimenta, nenhuma janela a observa. É a paisagem do avesso uma avenida que não se dá a ver porque não se dá a viver.

Mas a paisagem, ensina a arquitetura, é também projeto. E a história recente das cidades oferece exemplos magníficos de que a via mais inóspita pode tornar-se o lugar mais amado quase sempre com a arte como parte da resposta. Em Seul, a capital da Coreia do Sul fez algo que pareceria impensável entre nós: demoliu um viaduto elevado de quatro pistas, que carregava mais de 170 mil veículos por dia, para desenterrar o rio Cheonggyecheon, que a cidade havia coberto de concreto.

No lugar do asfalto, nasceu um parque linear de quase 6 quilômetros, hoje um dos espaços públicos mais amados de Seul. A lição não é apenas técnica é simbólica: a cidade que teve coragem de recusar a tirania do automóvel devolveu a si mesma um rio, um parque e um novo centro de encontro. No caminho, reduziu em 35% a poluição do ar e ganhou fôlego para remover outros dezesseis elevados. Seul não embelezou o congestionamento: extinguiu a sua razão de existir.

Nova York mostra outro caminho, igualmente instrutivo. A High Line, ferrovia elevada abandonada no oeste de Manhattan, estava condenada à demolição quando a cidade decidiu transformá-la em parque linear. Desenhada por James Corner, Diller Scofidio + Renfro e Piet Oudolf, a linha de 2,4 quilômetros tornou-se um dos espaços públicos mais visitados do mundo e o motor de uma das transformações urbanas mais celebradas do planeta.

A infraestrutura morta virou território de vida e a arte, com esculturas, instalações e comissões específicas para o lugar, é parte constitutiva dessa paisagem, não adereço. Vale a comparação: Salvador tem, entre Boca do Rio e o fim do canteiro central, um vazio com quase a mesma extensão da High Line. A diferença é que a ferrovia de Nova York foi salva; o canteiro de Salvador ainda espera que alguém o veja.

A escala monumental, tão temida e tão necessária, também tem precedentes à altura. No Storm King ArtCenter, nos Estados Unidos, cerca de 200 hectares de colinas nos arredores do rio Hudson abrigam mais de cem obras de mestres como Calder, Moore, Nevelson e Serra, em um museu a céu aberto que é referência mundial. Ali, a escultura monumental não compete com a paisagem: conversa com ela, e a paisagem inteira se torna obra. O que Storm King demonstra é que a grande escala, longe de esmagar, é capaz de acolher desde que a obra e o lugar se escolham mutuamente.

Oslo oferece uma lição complementar e talvez a mais comovente: o Parque Vigeland, com mais de duzentas esculturas de um único artista GustavVigeland em granito, bronze e ferro, transformou um parque público comum no símbolo da capital norueguesa e no maior parque de esculturas do mundo assinado por uma só mão. Nenhuma metrópole do planeta teria, à primeira vista, motivo para apostar a própria imagem em um escultor obsessivo; Vigeland fez de Oslo um destino. A lição para Salvador é preciosa: a arte pode dar identidade a um lugar inteiro e a Bahia, que já deu ao mundo Carybé, Mário Cravo, Tatti Moreno e tantos outros, não precisa mendigar essa identidade, tem de sobra quem a esculpa.

Há ainda o gesto mais democrático de todos, e ele vem da Austrália: todos os anos, a Sculpture by theSea transforma dois quilômetros do caminho costeiro de Bondi, em Sydney, na maior exposição gratuita de esculturas ao ar livre do mundo, com cerca de cem obras de artistas locais e internacionais. Sem muros, sem ingresso, sem porta a arte entregue ao vento, ao mar e ao passante comum. E o Brasil, para não depender de exemplos distantes, guarda em casa a prova mais terminante: Inhotim, em Brumadinho, transformou a paisagem tropical mineira em um dos maiores centros de arte contemporânea a céu aberto da América Latina, atraindo visitantes do mundo inteiro. Arte e paisagem, casadas com seriedade curatorial, são um dos maiores atrativos que um território pode ter.

O que todas essas referências ensinam é que a arte pública não é ornamento é matéria-prima da transformação urbana. Ela devolve ao espaço público a permanência, a identidade e a beleza que a velocidade tomou; faz do corredor um destino, um lugar para ir e não apenas para atravessar; e convida a cidade a se olhar e a se habitar de outro modo.

Imaginemos, então, o canteiro central da Paralela hoje um vazio que apenas separa transformado em um grande parque de esculturas a céu aberto: uma galeria que se estende por quilômetros, costurando os bairros que a via hoje apenas corta. A escala monumental da avenida, que esmaga o pedestre, seria convertida em aliada da arte: esculturas de grande porte daquelas que pedem céu, distância e ar livre ocupariam o canteiro como sentinelas de uma nova paisagem, dialogando com a pressa de quem passa e com a pausa de quem para. Nas bordas, praças de estar, sombra e encontro devolveriam ao pedestre a margem da via; os muros cegos se tornariam suportes para murais, e os vazios, jardins de escultura. Uma curadoria que abrisse espaço para grandes nomes e para jovens artistas baianos faria do percurso um museu sem muros e sem ingresso a arte mais democrática possível, entregue a quem apenas atravessa a cidade.

Haveria ainda um ganho de memória: obras que contam a Bahia, do barroco ao contemporâneo, dariam à via uma alma que ela nunca teve. E a manutenção, eterno calcanhar de Aquiles do espaço público, encontraria na arte um aliado: obra cuidada ensina a cuidar. Um parque de esculturas é, também, uma escola silenciosa de cidadania quematravessa a Paralela todos os dias aprenderia, sem perceber, a reconhecer a cidade como obra coletiva e a si mesmo como parte dela.

Talvez seja essa a lição que a avenida mais importante da cidade insiste em repetir, duas vezes por dia: não adianta fazer a cidade andar mais rápido se ela não souber para onde ir. A Paralela não precisa ser mais veloz. Precisa ser mais cidade e mais arte. Seul demoliu um viaduto para reencontrar um rio; Nova York plantou um parque sobre uma ferrovia morta; Oslo deu a um parque o nome de um escultor; Sydney faz da praia uma galeria; Brumadinho provou que o interior do Brasil pode atrair o mundo. Salvador tem, no canteiro de sua avenida mais larga, matéria-prima para um gesto à altura de sua vocação. Que o canteiro central, hoje apenas um vazio, seja o começo dessa decisão: o lugar onde a cidade finalmente se encontra com a arte, com a paisagem e consigo mesma.

Celso Cunha Neto

Copyright © 2023 Bahia Economica - Todos os direitos reservados.