

Ir ou não ir aos debates na televisão no primeiro turno das eleições presidenciais: eis a questão! E a questão é muito importante para os candidatos à Presidência da República, mas tem impacto diferente para Lula e Flávio Bolsonaro, os dois candidatos mais bem colocados nas pesquisas.
Lula, por exemplo, pode não querer ir aos debates porque lidera as pesquisas e não precisa correr riscos. Flávio Bolsonaro, por outro lado, pode não querer ir se Lula não estiver presente, porque seria atacado por outros candidatos da direita, como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos, que desejam ser uma opção para o segundo turno.
Flávio e Lula querem transformar a eleição em uma disputa direta e polarizada com o presidente. Os dois parecem ter uma razão forte para não participar dos debates na televisão, pelo menos no primeiro turno.
Lula é o presidente e lidera a corrida eleitoral. Se participar dos debates do primeiro turno, corre um risco evidente. É o único candidato de esquerda em um campo predominantemente ocupado por candidatos de direita. Ou seja: será atacado simultaneamente por todos. Cada candidato terá interesse em demonstrar que é mais capaz do que os demais para derrotar o presidente. O debate pode, assim, transformar-se em um “todos contra Lula”.
Flávio Bolsonaro é, de longe, o candidato da oposição mais bem colocado nas pesquisas. Se participar de um debate sem Lula, cada candidato de direita terá interesse em demonstrar que é mais capaz do que ele de derrotar o presidente. Sem Lula, o debate pode, assim, transformar-se em um “todos contra Flávio”.
Ou seja, para ambos, participar de debates no primeiro turno pode ser ruim. Se os dois principais candidatos não comparecerem aos debates, a audiência será pequena, mas haverá um efeito colateral. Não comparecer aos debates significa entregar aos adversários o palco para atacá-los. E isso pode produzir narrativas contra Lula e contra Flávio em cortes para as redes sociais e para a propaganda eleitoral gratuita.
Mas apenas um candidato se beneficiaria disso: Ronaldo Caiado. Isso porque somente Caiado teria tempo televisivo suficiente para se mostrar atacando tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro.
Lula terá um tempo de TV estimado em 5 minutos e 34 segundos por bloco, com 12 a 15 inserções diárias. Flávio Bolsonaro terá em torno de 3 minutos e 45 segundos por bloco, com cerca de 10 inserções diárias. E Ronaldo Caiado terá um tempo estimado de 2 minutos e 2 segundos por bloco, com cerca de 4 a 5 inserções diárias.
O candidato Augusto Cury (Avante) terá 36 segundos por bloco, mais uma inserção diária, e os demais não terão participação televisiva, por seus partidos não terem atingido a cláusula de barreira exigida pela legislação.
Esse tempo está apenas estimado e quem vai dizer o tempo real é a legislação eleitoral. Mas já é possível dizer que Ronaldo Caiado terá um tempo de exposição na TV mais que suficiente para produzir cortes e editar sua participação nos debates, levando esses conteúdos para o grande público televisivo e também para as redes sociais.
É por isso que a decisão de Lula e Flávio de não comparecer aos debates não é tão simples quanto parece. Seria simples se eles tivessem a certeza de que nenhum dos candidatos poderia crescer durante a campanha, mas ainda é cedo para dizer isso.
Ao não comparecer aos debates, Lula e Flávio estarão entregando a Ronaldo Caiado um palco para atacá-los e produzir uma narrativa contra os dois, inclusive com o mote de que são “candidatos fujões”, que poderá se espalhar pelas redes sociais e pela imprensa.
Correndo por fora, Ronaldo Caiado pode ser beneficiado pela ausência de Lula e Flávio Bolsonaro nos debates do primeiro turno. (EP- 03//08/2026)



