sábado, 25 de julho de 2026
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JANET YELLEN DIZ QUE ECONOMIA DOS EUA ENFRENTA NOVA ERA DE CHOQUES DE OFERTA

João - 25/07/2026 09:01

A economia dos Estados Unidos entrou em uma nova fase marcada por sucessivos choques de oferta que tornam o controle da inflação mais complexo e exigem cautela na condução da política monetária. Essa foi a avaliação de Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro dos Estados Unidos e ex-presidente do Federal Reserve (Fed), durante painel realizado nesta quinta-feira (23) na Expert XP 2026, ao lado do economista-chefe da XP, Caio Megale.

Segundo Yellen, o cenário econômico mudou profundamente desde a crise financeira de 2008. Após um longo período em que os bancos centrais buscavam estimular a inflação, a economia passou a enfrentar uma sequência de eventos que pressionaram os preços, como a pandemia, gargalos nas cadeias globais de produção, tarifas comerciais, tensões no Oriente Médio e, mais recentemente, os investimentos em inteligência artificial. “Agora estamos olhando para cinco anos, ou mais, com a inflação significativamente acima da meta de 2% do Fed”, afirmou.

IA ainda pressiona preços, e não reduz custos

Ao abordar os impactos da inteligência artificial sobre a economia, Yellen afirmou que, embora a tecnologia tenha potencial para elevar a produtividade no médio prazo, seus efeitos atuais são predominantemente inflacionários. Segundo ela, a expansão dos investimentos em data centers elevou a demanda por semicondutores, eletricidade e infraestrutura, impulsionando custos em diferentes setores da economia.

A economista comparou o momento atual ao debate vivido pelo Fed na segunda metade da década de 1990, quando Alan Greenspan defendia que o avanço da internet aumentaria a produtividade e permitiria manter juros mais baixos sem pressionar a inflação. Na avaliação de Yellen, esse efeito ainda não pode ser observado no atual ciclo da inteligência artificial. “Neste momento, a IA está aumentando a inflação, e não o contrário. Ainda não vemos evidências de ganhos relevantes de produtividade que justifiquem uma mudança na política monetária”, disse.

Fed deve permanecer em compasso de espera

Apesar de afirmar que gostaria de ver esses choques perderem força naturalmente, Yellen avaliou que o Federal Reserve precisa acompanhar de perto as expectativas de inflação antes de considerar cortes de juros. Ela também alertou que uma eventual intensificação dos conflitos no Oriente Médio, com novos aumentos no preço do petróleo, pode exigir uma postura ainda mais restritiva da autoridade monetária.

“Meu palpite é que, por enquanto, o Fed permanecerá em compasso de espera. Mas, se a turbulência no Oriente Médio continuar ou se intensificar, eu apostaria que veremos novas altas de juros para conter a inflação”, afirmou.

Dólar, stablecoins e o desafio fiscal

Durante a conversa, Yellen também avaliou que o dólar continua sendo a principal moeda de reserva global, apesar de uma perda gradual de participação nas reservas internacionais dos bancos centrais. Segundo ela, nenhuma outra economia reúne, hoje, a profundidade dos mercados, a liquidez e a segurança institucional oferecidas pelos Estados Unidos.

Ao comentar o avanço dos ativos digitais, a ex-secretária diferenciou stablecoins das criptomoedas tradicionais e defendeu uma regulação semelhante à aplicada a depósitos bancários e fundos de mercado monetário, com reservas integrais, supervisão e mecanismos de proteção aos investidores. Ela afirmou que a inovação pode tornar pagamentos internacionais mais rápidos e eficientes, desde que acompanhada de regras capazes de preservar a estabilidade financeira.

Por fim, classificou a trajetória fiscal dos Estados Unidos como um dos principais desafios de longo prazo para a economia americana. Segundo ela, o envelhecimento da população, o aumento das despesas com aposentadorias e saúde e um cenário de juros estruturalmente mais elevados tendem a ampliar a pressão sobre as contas públicas. “Não existe uma solução sem sacrifícios. Será preciso alguma combinação entre aumento de impostos, redução de aposentadorias e menor apoio às despesas médicas, e todas essas medidas são tremendamente impopulares”, afirmou.

 

(Foto: Fabio Rizzato / InfoMoney)

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