

Sérgio Faria, engenheiro e escritor, presidente da ALAS – Academia de Letras e Artes do Salvador e membro da ABROL – Academia Brasileira Rotária de Letras
Todo brasileiro, em algum momento da vida, já cantou – ou tentou cantar – o Hino Nacional. Não sei se esse costume permanece, mas uma das lembranças mais vivas que tenho da minha infância é o momento em que nos reuníamos enfileirados no pátio da escola primária para, em posição de respeito, com as mãos espalmadas ao lado do corpo, acompanhar a execução do Hino Nacional.
Cantávamos sem entender quase nada. Hoje, penso que talvez resida justamente na complexidade da letra parte do seu magnetismo.
João Ubaldo, na bem-humorada crônica “O verbo for”, relata um episódio pitoresco que se passou durante o seu exame oral de vestibular. Perguntado sobre o sujeito da primeira oração do Hino Nacional, respondeu, sem hesitar, que era “as margens plácidas”. A banca examinadora se surpreendeu. Acabou atribuindo a nota máxima quando ele completou a resposta esclarecendo que o “a” de “as margens plácidas” não estava craseado e, portanto, tratava-se de uma anástrofe – figura de sintaxe que inverte a ordem natural das palavras para conferir sonoridade ao verso.
E o Hino está repleto dessas inversões: “Do que a terra mais garrida”; “Nem teme quem te adora a própria morte”. São estruturas sofisticadas e que dificultam a compreensão mais imediata, mas, sem dúvida, emprestam grandiosidade ao texto.
Rica em figuras de linguagem, a letra, de autoria do poeta Joaquim Osório Duque Estrada, se destaca pela sua musicalidade e força poética. Tendo sido escrita no início do século XX, é fortemente marcada por detalhes estilísticos do parnasianismo e do simbolismo.
O texto contém metáforas memoráveis. A palavra “gigante” representa a grandeza territorial do nosso país. Em outra estrofe, o Brasil é comparado a uma criança que repousa em seu berço, protegida pela exuberância de nossas riquezas naturais.
Explorando o recurso da hipérbole, a cena da independência é magnificada para ressaltar sua relevância histórica: “E o sol da liberdade, em raios fúlgidos, brilhou no céu da pátria nesse instante”.
Outra figura de linguagem – a prosopopéia – surge quando o país “ergue da justiça a clava forte”, como se a própria nação pudesse movimentar os braços em defesa dos seus ideais.
Há também um diálogo direto com a nossa literatura. Os versos “Nossos bosques têm mais vida/ Nossa vida em teu seio mais amores” foram aproveitados do célebre poema “Canção do Exílio”, de Gonçalves Dias.
Embora criados em momentos distintos – com uma distância de quase um século – melodia e letra se harmonizam numa construção perfeita. Poucos compreendem integralmente seus versos. Ainda assim, quando os primeiros acordes ressoam, algo ancestral parece despertar. Levantamo-nos quase sem perceber, como quem atende a um chamado antigo.
Antes mesmo de ser entendido, o Hino é sentido. E talvez seja esse o maior encanto da poesia e da música: falar primeiro ao coração e só depois à razão.
O Hino Nacional, mais que uma lição de gramática ou de história, é a memória afetiva de um um povo que, vez ou outra, ainda se reconhece cantando a si mesmo.
Imagem de Khoa Lê por Pixabay