

O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais deixa uma imagem bastante clara do Brasil: a direita cresceu e o bolsonarismo ampliou seu território eleitoral, mas o Nordeste continua funcionando como um poderoso contrapeso. Flávio Bolsonaro terminou à frente de Lula, com 47,03% dos votos válidos contra 45,16%, uma diferença de apenas 1,87%, mas que representa 2,23 milhões de votos.
É uma vantagem importante, mas não é uma vantagem definitiva. O segundo turno começa com o país praticamente dividido ao meio e com uma pergunta que ultrapassa a simples contagem de votos: o Brasil está efetivamente se deslocando para a direita ou estamos diante de uma nova configuração de um eleitorado profundamente dividido?
Que houve um deslocamento das preferências eleitorais do país para a direita, não há dúvida. Mas também não há dúvida de que o país está dividido.
E está tão dividido que, entre os municípios brasileiros, Flávio Bolsonaro foi mais votado em 2.965 municípios e Lula em 2.748. Flávio venceu em 15 capitais, Lula em 11.
É verdade que Flávio Bolsonaro conquistou 714 municípios que haviam dado maioria a Lula na eleição anterior. Mas, se Flávio tem maior extensão territorial, Lula conserva uma concentração eleitoral muito forte no Nordeste e também em grandes centros urbanos. É preciso observar que Lula venceu na capital de São Paulo, o estado mais rico do país, e na capital do Rio de Janeiro.
Por outro lado, Flávio venceu em Minas Gerais, estado que historicamente funciona como um importante termômetro das eleições presidenciais brasileiras.
O mapa, portanto, não mostra simplesmente uma vitória da direita ou da esquerda. O primeiro turno produziu uma constatação e uma incógnita.
A constatação é que o bolsonarismo continua forte e ampliou seu espaço eleitoral. Flávio conseguiu herdar parte da força eleitoral de Jair Bolsonaro e, sobretudo, conquistou centenas de municípios que haviam votado em Lula em 2022.
A incógnita é saber se essa expansão será suficiente para transformar uma vantagem de primeiro turno em maioria nacional no segundo.
Para isso, Flávio precisa preservar sua vantagem nas regiões onde venceu e, ao mesmo tempo, disputar os eleitores que não pertencem ao núcleo bolsonarista.
Lula, por sua vez, precisa conservar a enorme vantagem que possui no Nordeste e recuperar espaço justamente nos territórios onde perdeu terreno em relação a 2022 e buscar exatamente aqueles que não pertencem ao núcleo bolsonarista.
O resultado do primeiro turno, portanto, não autoriza a conclusão de que o Brasil escolheu definitivamente a direita. Também não permite ignorar que a direita avançou.
O país parece ter chegado ao segundo turno com dois movimentos simultâneos: de um lado, a expansão do campo bolsonarista para novos municípios e regiões; de outro, a permanência de um grande cinturão eleitoral lulista, concentrado especialmente no Nordeste e em grandes cidades.
É esse equilíbrio que torna a próxima etapa imprevisível em termos políticos. O pêndulo brasileiro se moveu para a direita. Mas o Nordeste puxa esse pêndulo para a esquerda.
E, nesse cenário, a eleição será decidida menos pelos eleitores que já escolheram um dos dois pólos do que por aqueles que estão fora deles.
Vencerá quem atrair o centro duro do eleitorado brasileiro, aquele que não é nem bolsonarista, nem lulista. (EP – 05/10/2026)
(Foto: Fotomontagem/Gazeta do Povo (Beto Barata/PL e Ricardo Stuckert/PR))



